ENSINO – A polêmica da educação em casa

24 03 2008

(Transcrito do JORNAL DO BRASIL, 24-03-2008)

Ubiratan Iorio  

A sábia afirmativa de um educador português de que “a escola é hoje um depósito em que os pais abandonam os filhos para ir trabalhar” remete-nos a um caso recente ocorrido em Timóteo, Minas Gerais: um casal está sendo ameaçado de prisão e perda da guarda de seus filhos pelo “crime” de educá-los em sua casa. Cleber e Bernadeth Nunes, preocupados com os padrões educacionais e a má formação moral que seus dois filhos estavam tendo, tiraram-nos da escola pública há dois anos. Os meninos, agora, foram aprovados com notas altas no vestibular para uma faculdade de Direito, mas, como têm 14 e 13 anos, não têm permissão para ingressar em um curso superior. O êxito dos garotos não tocou as autoridades, que ordenaram aos pais que os mandassem de volta ao colégio e pagassem multa de 12 salários mínimos, sob pena de prisão e perda de sua custódia. É o Estado-genitor. Em entrevista, Cleber disse o que qualquer paralelepípedo sabe: que nosso sistema educacional é um fracasso comprovado, com baixas classificações em estudos nacionais e no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, que deu aos alunos brasileiros, em termos de desempenho escolar, a 57ª posição. Mas, apesar do progresso de seus filhos e do fracasso patente do ensino oficial, os tribunais insistem em que eles devem mandá-los de volta à escola pública local. Disse ainda Nunes, referindo-se à reação das autoridades face às aprovações no vestibular de Direito: “eles não ligam e continuam com o processo. Eles afirmam que a lei deve ser obedecida”. De fato, se há um problema de ilegalidade, há também outro, maior, de injustiça! Não seria mais justo mudar a lei? O caso dos Nunes não é único. Outras famílias brasileiras que resolveram educar os filhos em casa também passaram e passam por apertos. Li na internet que Josué Bueno, um ex-pastor batista, para proteger os nove filhos das influências imorais que, a seu ver, contaminam as escolas públicas e tendo conhecido a prática do homeschooling durante sua juventude nos Estados Unidos, decidiu educá-los em sua casa. Mas sua tentativa de garantir aos filhos suas convicções custou-lhe caro: o conselho tutelar intimou-o a submeter-se, com a família, a “tratamento psicológico” estatal e a matricular as crianças em uma escola. Em resposta, mudaram-se todos para o Paraguai, mas podem ser repatriados. O casal de Timóteo está se recusando a enviar seus filhos de volta à escola, enquanto apela da sentença. “Eu lutarei até o fim”, diz Cleber. No entanto, se perder, ele reconhece que, “como último recurso”, a família também deixará o Brasil. É o Estado-babá. O fato é que as escolas, no mundo inteiro, dominadas pelo gramscismo, passaram a ser fonte de sórdida doutrinação ideológica. Ensinam o politicamente correto – que, muitas vezes, é o cientificamente incorreto – e estimulam o preconceito negativo, aquele que assume ares de dogma, inteiramente fechado ao contraditório e à discussão. Ademais, o ensino atual nivela por baixo: se existem alunos com menos capacidade, amolda-se à pouca exigência, criando na prática analfabetos funcionais ou bacharéis de nome. Muitas vezes, os bons alunos são punidos. É o “não às elites”… O homeschooling permite que as crianças aprendam em casa, seja com os pais, se tiverem habilitações acadêmicas e tempo, seja com professores contratados. Na Europa há países que o permitem mediante certas condições, como França e Bélgica, em que existem comunidades (bairros, condomínios e grupos religiosos) que contratam professores particulares para as suas crianças, sendo os pais apenas obrigados a seguir os programas-padrões do ensino oficial. No fim do ano, as crianças fazem um exame nacional de avaliação e periodicamente o Estado promove visitas de inspetores às casas dos alunos. Nos Estados Unidos, em 1999, pelo menos 850 mil estudantes estudaram em casa, número que corresponde a 4% de todos os alunos americanos e que supera o de matrículas em escolas públicas de dez Estados juntos, incluindo Vermont, Montana, o Havaí e o Alaska. A polêmica sobre o homeschooling é interessante e merece atenção. Há prós e contras. Malgrado muitos pais brasileiros não tenham condições de ensinar aos filhos ou de pagar para que outros o façam e a despeito de questões graves como a da insegurança, é justo cercear o seu direito de escolha e violar seus princípios e tradições? Afinal, são seus filhos ou filhos do Estado? Temos ou não o direito de transmitir aos que colocamos no mundo as nossas convicções? Por que a educação oficial (pública e privada) seria “superior” ao homeschooling? Enfim, qual o papel da família?

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