LIVRO DIDÁTICO INFANTIL COM IMAGEM DE TORTURA CHOCA PAÍS

11 06 2009

Secretaria de Educação do Rio reconhece que obra usada com alunos de 9 anos é inadequada e vai recolher exemplares das escolas públicas
(Transcrição: “O DIA” Maria Luisa Barros, Rio de Janeiro)
Rio – Gravura de um ritual de tortura indígena, que foi parar nas páginas de livro de História utilizado, há três anos, por escolas da Prefeitura do Rio, surpreendeu e chocou pais de alunos de turmas do 4º ano (antiga 3ª série) do Ensino Fundamental. A imagem exibe, para crianças de 9 anos, a cena de um empalamento — um suplício antigo que consistia em introduzir em um condenado, pelo ânus, uma estaca aguda que atravessava os órgãos até chegar à boca. Em nota, a Secretaria Municipal de Educação informou que vai recolher todos os exemplares do livro e já notificou o caso ao Ministério da Educação (MEC). A secretaria afirmou que não considera apropriada a ilustração para alunos do 4º ano. A secretária Cláudia Costin fará um levantamento junto às escolas da rede para saber quantos exemplares foram adotados e, ao mesmo tempo, um estudo para a elaboração de material didático para substitui-los o mais rapidamente possível. A publicação ‘Projeto Pitanguá — História’, da Editora Moderna, consta da listagem nacional do Programa Nacional do Livro Didático, distribuído gratuitamente pelo Ministério da Educação (MEC) às escolas públicas e particulares em todo o Brasil. A edição foi usada por estudantes cariocas em 2007, 2008 e 2009. Os livros didáticos são escolhidos pelo professor a partir de uma lista avaliada e determinada pelo MEC. A cabeleireira Hirlene Barboza dos Santos, 39 anos, denunciou o caso a O DIA depois que o filho M., 10 anos, mostrou em casa o que tinha acabado de aprender na Escola Municipal Coronel PM Flávio Martins Albuquerque, em Sulacap. “Tomei um susto quando vi a gravura. Nunca tinha visto uma cena dessa. Na sala de aula, a figura agitou os estudantes, que já estavam comentando o fato antes mesmo de a matéria ser dada”, criticou a mãe. Para ela, o maior medo é que as crianças resolvam imitar a ilustração. “Eu sei que se trata de um fato histórico. Mas nessa idade eles copiam tudo o que veem, sem a maturidade para avaliar os riscos. Na época do filme ‘Tropa de Elite’’, as crianças colocavam sacos na cabeça uma das outras”, critica.
A Editora Moderna esclarece que as ilustrações contidas no livro, dos autores Maria Raquel Apolinário, Cesar da Costa e Cândido Domingos Granjeiro, devem ser analisadas dentro de seu contexto de época e de cultura, que faz parte do currículo dessa série escolar. No caso da gravura de Theodore de Bry, ela mostra a visão de um artista do século 16. “São reproduções de pinturas ou gravuras históricas presentes em museus, bibliotecas e acervos públicos, cuja visita faz parte do currículo extracurricular dos estudantes dessa faixa etária”, diz a nota. A editora informa que a partir do ano que vem a publicação não terá mais esta gravura, já que a cada edição 50% das ilustrações e textos são substituídas.
Para a psicopedagoga Tania Marcia Ferreira Nunes, que atende alunos de escola particular, a gravura não é recomendada para o 4º ano. “A barbárie sempre esteve presente na Antiguidade. Mas é preciso poupar nossas crianças de tanta violência, porque elas não têm maturidade para essa realidade”. Professora da Faculdade de Formação de Professores da Uerj, Alzira Batalha, diz que cenas chocantes são desnecessárias. “Outras gravuras poderiam ter sido usadas,para não banalizar ainda mais a violência”, diz a educadora.
Gravurista do século 16 retrata cultura indígena
A gravura do francês Theodore de Bry, feita em 1540, retrata hábitos culturais dos povos tupis, cujos integrantes executavam seus adversários para vingar seus antepassados. Considerado um dos mais importantes gravuristas do século 16, Theodore tem obras no acervo da Biblioteca Mário de Andrade, que é o principal acervo público de São Paulo, com entrada gratuita para estudantes. As cenas mostram índios tupinambás aprisionando tribos inimigas. As imagens, com base nos relatos dos primeiros europeus que tiveram contato com indígenas brasileiros, revelam rituais de tortura praticados pelas tribos. Em outra gravura de De Bry, os tupinambás comem adversários para incorporar o espírito guerreiro do inimigo.
Entre a perplexidade e a indiferença
A ilustração deixou mães perplexas na Escola Municipal Coronel PM Flávio Martins Albuquerque, em Sulacap. “A gravura traz muita violência e pode deixar as crianças impressionadas. É horrível”, observou Lourdes dos Santos, 36, mãe de aluna de 9 anos da 4º ano. Outra mãe, Maria Aparecida, achou a imagem forte demais. “É forte até para mim. Fiquei chocada”, diz, com o filho de 10, na 4º ano. Vera Regina da Silva Lima, 37, recomenda atenção: “Não precisava ser tão explícito. Na turma da minha filha de 5 anos no Jardim 2, a amiguinha dela disse que fez sexo com o namorado. As crianças estão vendo o que não devem”. Com filho de 11 anos no 5º ano, Gilvania da Silva, 38, aprovou o livro: “Não vejo nada demais. Meu filho precisa saber sobre a vida”. Mãe de menina de 6, no CA, e de menino de 9, no 3º ano, Maria Aparecida Araujo, 38, alega não poder ocultar a realidade. “Converso muito com meus filhos”, diz.
Palavras chulas e versos polêmicos
Não é a primeira vez que livros didáticos são distribuídos com conteúdo impróprio a estudantes de escolas públicas. Em 2007, alunos da rede municipal de São Gonçalo utilizavam cartilha de alfabetização com trechos que induziam as crianças a repetir versos onde se denominavam “burros”. Em uma das lições, o professor lia frases com a expressão: “Encontramos três burros; comigo, quatro”. Na época, o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe) denunciou o livro ‘Chão de Estrelas’ ao Ministério Público. Alunos de 9 anos da rede pública de São Paulo receberam livro de poesia com os versos “nunca ame ninguém, estupre”, “tome drogas”, “Odeie. Assim, por esporte”. O ‘Manual de autoajuda para supervilões’ foi retirado das salas de aula. Estudantes do 4º ano de escolas da prefeitura paulista receberam o livro ‘Dez na Área, um na Banheira e Ninguém no Gol’, que traz palavrões e expressões sexuais. Ao falar sobre jogos de futebol em presídios, o livro apresenta m desenho de presos com armas e bandeirolas da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Em março, a secretaria de Educação paulista já tinha ocupado as manchetes por enviar livros didáticos aos alunos com conteúdos errados de Geografia. O lapso “ensinava” que o mapa da América do Sul tinha dois Paraguais.


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