EDUARDO PAES: ‘PROFESSOR QUE SE DESTACAR VAI TER UM 14º SALÁRIO’

6 04 2009

Transcrição: “O DIA”

Rio – O vidro blindado no gabinete do Palácio da Cidade, em Botafogo, voltado para a encosta da Santa Marta, é herança da gestão de Luiz Paulo Conde. O atual dono da sala, o prefeito Eduardo Paes, garante que não tomaria a mesma medida nem com a recente guerra do tráfico na Zona Sul. O discurso afinado tem razão de ser. Sempre que pode, ele destaca a política de segurança do governador Sérgio Cabral, com quem diz falar “550 vezes por dia ao telefone”.
Sexta-feira, Paes chega ao seu 100º dia de gestão. E, assim como seu padrinho político, aposta em melhorias na educação para combater a violência. Uma das medidas chega ao bolso de funcionários das escolas em março de 2010. Em entrevista a O DIA, o prefeito confirmou que diretores, professores, merendeiras e serventes de unidades que cumprirem metas pedagógicas e sociais ganharão o 14º salário com direito às bonificações. Se a unidade ficar em área de risco, o valor será acrescido em meio salário. Ele admite que faltou avançar na Saúde e no Transporte. E, entre os seus orgulhos, está ter virado um tormento para os secretários.
O DIA: Qual foi a maior surpresa nestes 100 dias de governo?
Paes: Não imaginei que a situação financeira da prefeitura fosse tão ruim. Uma crítica que eu nunca fiz ao meu antecessor era de sua capacidade gerencial, financeira, de cuidar das contas públicas. Eu nunca fiz essa crítica ao Cesar (Maia, ex-prefeito). Podem olhar à vontade (nos jornais) que vocês não vão encontrar (as críticas). Ele deixou uma bomba-relógio.
A situação estava fora de controle?
Infelizmente, depois de alguns anos longe da prefeitura, vi, por exemplo, que a Controladoria saiu de uma ação preventiva — sempre analisava os processos, as despesas antes de serem, de fato, consumadas — e passou a apurar depois que a lambança estava feita. Estamos retornando ao modelo anterior, mas isso foi uma coisa que me surpreendeu muito, porque o Cesar sempre estabeleceu isso bem, sempre trombeteou que tinha esse sistema de controle.
E qual a principal conquista nestes meses?
De ações já realizadas, foi, sem dúvida, o fim da aprovação automática. Tomei um susto quando vi os números de analfabetos funcionais. Esse dado só consolidou uma coisa que eu achava que era uma conquista. Outra boa notícia é que as medidas que a gente vem tomando desde o início da administração — e o olhar atento e pessoal do prefeito sob cada gasto, cada despesa, cada receita — hoje me permitem dizer com tranquilidade que vamos dar jeito na situação. A gente vai devolver à cidade a capacidade de investimento.
E qual a sua frustração?
Eu, como sou uma pessoa muito angustiada, também sou um frustrado. Não resolvi todos os problemas de saúde, não implantei o bilhete único, não fiz 40 UPAs, não melhorei os transportes, a conservação não está ideal, as praças todas não estão limpas… Ao mesmo tempo essa frustração vem acompanhada de uma nova esperança, porque são todos temas e assuntos de que a gente está tratando. Não tenho dúvida de que a gente vai cumprir muitas coisas até o fim deste ano. A prefeitura não tinha o sistema de compras por pregão eletrônico. Tem um sistema de telefonia arcaico, gasta R$ 46 milhões por ano, enquanto todos os governo do Brasil gastam menos. Tanto que copiei o edital do Regis Fichtner (chefe da Casa Civil do estado) e vou fazer igual. O estado passou de R$ 90 milhões para R$ 9 milhões por ano. A gente vai passar de R$ 46 milhões para R$ 3 milhões o gasto com telefonia.
Como o senhor avalia a Educação nesse período?
A secretária Cláudia Costin tem feito um belo trabalho. Um dos destaques é o bônus que daremos aos profissionais de escolas que superarem metas de desempenho. O valor será um 14º salário. Vamos definir os critérios de avaliação. E quem atuar em áreas de risco ainda receberá mais meio salário.
O bilhete único também não foi implantado. Ainda é prioridade este ano?
Acho que a gente consegue implantar até dezembro. Bilhete único tem que ter integração. O sistema de transporte alternativo é uma zona, os ônibus são uma bagunça, os táxis, coitados, não têm regulamentação, os sinais de trânsito não funcionam, operação de tráfego é inexistente. Ou seja, caos completo. Tem que ver qual é o papel da van, tem que ter racionalização do sistema, tem que ter a definição dos corredores. Estamos trabalhando nisso tudo.

O senhor se disse frustrado por não ter feito nenhuma UPA, mas por que não tomou medidas mais simples, como ampliar o horário dos postos de saúde?
Ainda não aconteceu porque não tem pessoal suficiente. Não vai ter milagre. A gente não pode querer que o prefeito faça tudo em três meses. Nem em quatro meses. Há um processo. Em algumas áreas, você tem possibilidade. Por exemplo, estabelecer a ordem. É simples questão de querer, você não precisa de nada. Não custa um tostão. Outras coisas, não. Precisa de dinheiro, de licitar, estruturar, conceituar.
Por falar em ordem, as ações vão continuar sendo um marco da sua gestão?
Acabou o choque de ordem. Acho que o nome agora é cidade com ordem. Decreto nesses 100 dias de governo o fim do choque de ordem e o início de uma cultura constante.
As ações já renderam o suficiente?
O choque era necessário para que ficasse claro para a população uma mudança de postura e que não iríamos ser tolerantes com justificativas sociais para abusos que se cometem na cidade, que não têm nada a ver com problema social — e o problema social estamos tratando como tal. Camelô irregular, por exemplo, a gente não combate no varejo. A gente vai no atacado, no distribuidor. Ocupações que eventualmente tivessem famílias, todas elas receberam aluguel social. Picareta, capitalista construindo minhocão, tirolão, aí não tem assistência social nenhuma, tem o rigor da lei.
Mas uma das reclamações dos leitores de O DIA é que o choque de ordem só fez ‘limpeza’ na Zona Sul e no Centro. Nunca chegou efetivamente à Zona Norte.
Eu acho que não. É óbvio que tem áreas da cidade em que você tem uma presença maior da mídia. Não é o caso de O DIA, que está sempre na Zona Norte e em todos os bairros. Estou iniciando um processo em que os secretários sabem que a Zona Norte tem que ser pensada, que existe aquele mundo, que existem Costa Barros e Barros Filho.Você não tem uma capacidade de mobilização tão grande nessas áreas. A média dos secretários mora na área litorânea. A Zona Norte é uma região que tem todas as condições de se desenvolver, que se degradou por ausência do poder público, que precisa dessa presença maior e de alguns estímulos. Então, tomamos algumas medidas, como uma lei especial para call center, o que gera emprego. Chamei a atenção dos secretários para a conservação e iluminação caóticas na Zona Norte, boa parte das Escolas do Amanhã (projeto para unidades em áreas de risco) está localizada na região.
O senhor frequenta estádio de futebol. Como torcedor, aprovou as mudanças trazidas pelo choque de ordem no Maracanã?
No entorno, desde que começou, melhorou 1.000%. Aquela medida de proibir bebida no entorno foi essencial. Você tinha as pessoas se concentrando, porque estava proibido dentro. Eu sou contra a proibição dentro. Acho equivocada, só faz com que as pessoas cheguem em cima do espetáculo. Eu passei a defender a tese de se proibir no entorno, porque você tinha concentração das pessoas até o momento de entrar no estádio, quando ia começar o jogo.
Em janeiro, o senhor anunciou um pente-fino na folha de pagamento da prefeitura. Algo já foi descoberto?
Estamos fazendo algumas auditorias, mas não temos nenhuma resposta.
O Previ-Rio cortou benefícios de servidores municipais. Mais cortes podem vir?
Eu quero afirmar e reafirmar meu compromisso com o servidor. E a única modificação que eu tive que fazer nas coisas que existiam para o servidor foi um negócio que o Cesar Maia inventou em meados do ano passado, que foi o auxílio-creche. Se eu continuasse, eu quebrava o Previ-Rio, que é do servidor, não é do prefeito, não é da população, não é imposto que as pessoas pagam. É o salário do servidor que é colocado lá, e o Cesar deixou um rombo de quase R$ 800 milhões.
Mas o senhor acabou com o cartão-cesta de Natal do servidor.
Tem uma expressão nos Estados Unidos que diz “Christmas in July” (Natal em julho). Nós não temos aqui ‘Christmas in March’ (Natal em março). Natal é no Natal. Espera chegar o Natal para saber se eu vou dar vale Natal, porque ele também, em 12 anos de administração, só deu em um ano: no último. Não era assim como um benefício do servidor que existia. Todos os benefícios, eu mantive. Este, o Cesar só deu em um ano. E eu vou dar em todos os quatro anos de governo, tirando o que quebrava o Previ-Rio.
Numa entrevista publicada no DIA, 12 de outubro, o senhor disse: “Todos os benefícios concedidos aos servidores serão mantidos. Se possível, melhorados”. Houve quebra de promessa.
Não quebrei. A única medida que tomei foi do auxílio-creche, porque foi criada no ano passado, somente, e quebrava o Previ-Rio. E se quebrasse o Previ-Rio, eu estava quebrando os outros benefícios. Eu garanto que hoje tem muito mais servidor comandando a prefeitura do que tinha o ano passado, em cargos de chefia. Não tem nenhum direito do servidor que vai ser mexido. Isso eu garanto: não há direito adquirido que não será mantido.
Como tem sido sua rotina?
Tenho trabalhado 18 horas por dia, engordei nove quilos. Cheguei a perder quatro, mas recuperei na viagem aos Estados Unidos, na última semana de março. Faço regime.
Entre os secretários, o senhor é conhecido por ser muito exigente. Ainda continua ligando para sua equipe de madrugada para fazer cobranças?
Eu sou meio pentelho. Tem uma menina aqui que tem a tarefa de fazer uma tabela de promessas. Não para mim, mas dos outros (secretários) comigo. Então, ela anota tudo. É impossível escapar de mim. Eu já sou ligado, já anoto tudo. Ela anota mais ainda. Vou ficar quatro anos atazanando. Quem toma menos de dois comprimidos de Frontal (tranquilizante) comigo, eu fico desesperado. Tem secretário que está no terceiro. Começou com meio, eu falei: ‘Vou te fazer chegar a um’. Chegou, eu senti que estava meio com cara de doidona. Foi para um e meio, continuou com cara de doidona, rindo demais. Falei: ‘Vou esticar essa cota’. Tá em dois. Agora, ela falou que estava em dois e meio e ainda está rindo. Na hora que ela surtar, eu paro.
Após o choque de ordem, o senhor tem tomado algum cuidado especial com a segurança?
Bruno Ramos, subprefeito da Zona Sul, estava recebendo ameaças. Eu não tenho medo de delinquente, marginal, bandido. Nunca tive, muito menos agora. E cada vez tenho menos. Eu quero que eles sumam do Rio. Ou indo para a cadeia ou indo para outro lugar encher o saco de outro, mas não quero bandido aqui. De verdade, não tenho esse temor. A gente também tem muita informação. Malandro sabe que a gente está informado. Em geral, esses vagabundos são muito covardes. Na época do Conde, colocaram vidro blindado aqui. (bate na janela). Acharam que era necessário. O Cesar pode ele mesmo ter dar dado um tiro aqui e inventado (uma bala perdida já atingiu o Palácio da Cidade). Não custa nada (risos).
Nos próximos meses, a prefeitura itinerante se muda para onde?
Chega à Zona Oeste. Vai ser do dia 17 ao dia 22 maio. Estou definindo, mas, a princípio, vai ser toda a AP5 ( Bangu, Padre Miguel, Senador Camará, Campo Grande, Cosmos, Inhoaíba, Santissímo, Senador Vasconcelos, Paciência, Santa Cruz, Sepetiba, Barra de Guaratiba, Guaratiba, Pedra de Guaratiba, Campos dos Afonsos, Deodoro, Jardim Sulacap, Magalhães Bastos, Realengo e Vila Militar). De repente, vou rediscutir esse modelo que eu fiz, de uma semana toda. Posso fazer um fim de semana mais intenso. Mas não tem isso de o prefeito chegou lá — e pirlimpimpim! — e mudou o mundo para as pessoas.

 


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