A EDUCAÇÃO NA ERA DO NOTEBOOK

31 01 2009

Uso de laptops em aulas ainda tem muito a avançar, mas no ensino superior, alunos já são obrigados a tê-los

Transcrição: Bruno Versolato – Especial para o JT

SÃO PAULO – Ainda não é assim. Mas, para alguns especialistas em educação, o material escolar do futuro irá muito além de cadernos e livros. Será um notebook.

As experiências do uso do laptop no cotidiano dos alunos (e não limitado a aulas especiais) ainda são restritas. Elas tendem a aumentar, seguindo a tendência internacional. O que depende de condições econômicas, tecnológicas e também pedagógicas – área onde a adoção dos laptops provoca polêmica.

 “Com o computador em sala, os alunos se libertam do que é proposto pelo professor. Podem pesquisar, questionar. É uma experiência única que só a tecnologia permite. Um computador por aluno pode mudar de maneira radical a educação brasileira”, diz a engenheira Roseli de Deus Lopes, da Escola Politécnica da USP, que coordenou testes com notebooks na escola municipal Ernani Silva Bruno, em São Paulo. “A forma como se ensina é tão primitiva que o aluno chega à universidade sem motivação para aprender.” “Com o notebook e o acesso à internet, mesmo crianças fora dos grandes centros ganham uma janela para o mundo”, diz Daniella Duponté, diretora da escola municipal Antônio José Ramos, mantida pela ONG Instituto Lumiar em Santo Antônio do Pinhal (SP). Essa janela ajuda os alunos a entenderem também o que está perto deles. Em agosto, crianças de 6 anos estavam no gramado da escola quando viram passar borboletas em revoada. Decidiram ali seu objeto de pesquisa. Buscaram dados na internet sobre as borboletas e envolveram professores de português, matemática e ciências no trabalho. “Meu filho não gostava muito de estudar. Depois que mudou para o Lumiar, não perde aula de jeito nenhum”, diz Sandra Ferreira, mãe de Alfredo Paes, de 6.

O exemplo de Pinhal ainda é incipiente. Segundo pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) com dados de 2003 e 2005, o Brasil estava em penúltimo lugar na quantidade de computadores por aluno entre 57 países e em último na disponibilidade de softwares educativos. Nas escolas brasileiras com computador, 50 alunos, em média, disputavam um micro. Nos países desenvolvidos, eram 6 alunos.

No caso dos notebooks, a ONG One Laptop Per Child (Um Laptop por Criança) estima que existam em salas de aula do País só 2.600 equipamentos semelhantes aos de Pinhal. O número vai subir exponencialmente quando o governo federal concluir a compra de 150 mil notebooks para 300 escolas. Feita em dezembro, a licitação foi vencida pela indiana Encore, com o laptop Mobilis. Mas um recurso ao Tribunal de Contas da União levou à suspensão da entrega dos aparelhos, prevista para fevereiro. Nem todos os educadores consideram que o impacto da mudança tecnológica será tão positivo quanto acreditam Roseli e Daniella. “A simples presença do computador na sala não melhora os resultados nos exames do Saeb”, afirma o professor Naércio Menezes Filho, do Ibmec São Paulo. Segundo ele, o único indicador que melhora significativamente o desempenho é o maior tempo de permanência na escola. “Ter um computador aberto em sala sem projeto pedagógico é prejudicial ao aluno.” Em Pinhal, os 45 alunos usam notebooks há dois anos. Mas um ano antes da chegada dos laptops os professores já recebiam treinamento. “Fizemos um planejamento cruzando disciplinas para que nada desse errado”, conta Daniella. Em Campinas (SP), a Fundação Bradesco mantém a primeira escola fora dos Estados Unidos a adotar integralmente o conceito de um computador por aluno. “Planejar, lecionar, tudo mudou com a tecnologia. Um esqueleto não é mais visto num livro, mas em três dimensões”, diz Paulo Mucci, coordenador do colégio. No Ibmec, há dois anos o estudante é obrigado a comprar um notebook para acompanhar aulas de graduação, mestrado e MBA em Economia e Administração. Mas há restrições ao equipamento. “Numa aula de cálculo, por exemplo, não faz sentido usar o notebook”, afirma Ricardo Uras, de 19 anos, aluno de Economia. “O laptop é fundamental em algumas aulas, mas não substitui livro e caderno”, diz o diretor Sérgio Lazzarini. Mesmo porque o risco de mau uso da tecnologia existe até numa escola de elite. “Já teve professor que pediu a alunos do MBA que saíssem da sala porque estavam jogando Counter Strike (game no qual se mata rivais a tiros) durante a aula.”

 

Dicas para avaliar projetos de informática

 Coordenadora do curso de especialização em Tecnologia Interativa Aplicada à Educação da PUC-SP, Darcy Raiça dá dicas para os pais avaliarem os programas de informática das escolas:

 

Corpo docente: Precisa ser especializado e experiente no manuseio das máquinas. “Um workshop de uma semana não resolve, os professores devem ter apoio pedagógico constante”

 

Corpo técnico: A escola deve ter pessoal especializado que conheça as máquinas e o sistema de rede e dê apoio aos professores nos novos projetos. O setor técnico precisa estar em tempo integral na escola

 

Disciplinas andam juntas: Projetos que usam computador em sala de aula são mais eficazes quando combinam disciplinas. Os alunos podem misturar inglês com artes para fazer um gibi. Biologia pode ter um projeto com educação física para ensinar fisiologia

 

Todos falam a mesma língua: Converse com um professor, com o técnico, com o diretor. O ideal é que todos expliquem da mesma forma como funciona o projeto pedagógico que une tecnologia e ensino

 


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