PARA LER E MEDITAR

23 12 2008

 ‘O GLOBO” – PRIMEIRO CADERN0 – 22/12/2008

 

O outro flagelo

 

PAULO MARQUEIRO

 

O flagrante de militares e voluntários desviando donativos enviados aos flagelados de Santa Catarina parece ter chocado o país. Mas, convenhamos, as pessoas ficaram surpresas com o que? Numa sociedade em que policiais militares chegam de camburão para arrombar uma loja de eletrodomésticos no silencio da madrugada e em que PMs furtam engradados de cerveja de um caminhão roubado, em plena luz do dia, alguém ainda se espanta com algo? Não estou nem falando dos mensaleiros, dos dólares escondidos na cueca, das pizzas servidas pelo nosso Legislativo. Falo de algo mais velado, mas não menos incomodo: o jeitinho, a lei da vantagem, o “Ilegal. E daí?”. Achado não é roubado. Farinha pouca, meu pirão primeiro. No país dos espertalhões, quem transgride  é malandro; quem segue as normas é otário. Para que ficar engarrafado se existe o acostamento? Ou pagar estacionamento se a calçada está disponível?, Parar no sinal vermelho, só se houver pardal. Porque, com o guardinha, quase sempre tem jogo. O estacionamento está lotado? A vaga para deficientes, não. Que tal usar os bancos de cor laranja do metrô, que são preferenciais, enquanto idosos ficam em pé? E as filas furadas na maior cara de pau? Já ia me esquecendo da carteira falsificada para pagar meia entrada. Por que, com raras e honrosas exceções, ninguém dá nota fiscal? Por que comerciantes que faturam horrores insistem em sonegar impostos? Por que alguns restaurantes estendem seus puxadinhos sobre as calçadas, tirando o espaço dos pedestres? Por que algumas concessionárias, apesar de beneficiadas pela redução do IPI, vendem carros pelos mesmos preços que cobravam antes, iludindo os consumidores? E o imposto de renda? Que tal falarmos sabre recibos forjados e falsos dependentes, fraudes tão corriqueiras? “O dinheiro seria desviado mesmo”, dizem alguns, criando o desvio na fonte. A catarinense que saiu com o carrinho cheio disse que tinha sido autorizada. Todos têm as suas justificativas. Se quisermos de fato refletir sobre a lama exposta pelas chuvas em Santa Catarina devemos deixar a hipocrisia de lado. E verdade que políticos e autoridades de modo geral têm nos dado péssimos exemplos. Mas será que estamos fazendo a nossa parte? Se não conseguirmos mudar essa mentalidade, de que o importante é levar vantagem, dificilmente sairemos de onde estamos. Por enquanto, ainda sentimos vergonha. Daqui a pouco, nem isso.

 

PAULO MARQUEIRO é jornalista

 


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