ALUNOS ABANDONAM O ENSINO MÉDIO

15 12 2008

Transcrição: “JORNAL DO BRASIL”.  Carlos Braga
Os rumos da educação

Jornada de trabalho e estudo e currículo defasado são causas do índice de 50% de evasão
A evasão de alunos do ensino médio é o sintoma de uma metástase de problemas que acomete este ciclo de aprendizado. Apenas a metade dos jovens que se matricula no primeiro ano do ensino médio consegue concluir os três anos que o compõem. Dados do censo escolar de 2007 do Ministério da Educação (MEC) revelam que, dos 3,6 milhões de jovens que se matriculam no ensino médio, apenas 1,8 milhão conseguem se formar. Especialistas, que participaram do seminário A crise de audiência do ensino médio, promovido pelo Instituto Unibanco em São Paulo (SP), concordam com o diagnóstico de que ensino médio, da forma como existe hoje, está desenganado. ­ O currículo, que está desconectado da vida, é dividido por disciplinas e não por área de conhecimento ­ analisou a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva. ­ Vamos pesquisar os currículos existentes e criar um novo currículo comum até julho de 2009. Vamos propor também o aumento da faixa de idade em que deve haver a matrícula obrigatória. Hoje é dos 6 aos 14 anos. Queremos que seja dos 4 aos 17 anos. É preciso mudar a Constituição, mas esperamos que já esteja valendo em 2014. O currículo em descompasso com a realidade é um dos fatores que contribuem para a evasão. Problema que é agravado com a necessidade que os jovens têm de trabalhar para ajudar o sustento da família; e que, por conta disso, estudam à noite. O resultado, relatam especialistas, é um aluno que chega à escola cansado, na maior parte das vezes atrasado, e freqüenta aulas que não o preparam para o vestibular e tampouco para o mercado de trabalho ­ ou apenas que não conseguem compreender. O professor João de Oliveira Timbó, que leciona geografia no Ciep Ayrton Senna da Silva, próximo à favela da Rocinha, Zona Sul do Rio, calcula que 40% dos seus 970 alunos não chegam ao fim do ciclo. Timbó aponta duas causas para a evasão: o cansaço depois da jornada de trabalho e a incapacidade de entender o que está sendo ensinado. ­ Eles conseguem trabalhos simples como lavador de carros e balconista de supermercados ­ conta Timbó. ­ Chegam cansados e têm dificuldade de compreender as aulas. Alguns, infelizmente, não sabem ler nem escrever. Acabam por perder a auto-estima e o gosto pela escola. O despreparo dos jovens egressos do ensino fundamental é outro entrave. Entre 2006 e 2007, dos 3.135.829 alunos matriculados na 8ª série do ensino fundamental, 2.527.000 (80,6%) poderiam ingressar no ensino médio. No entanto, apenas 2.274.000 o fizeram em 2007 (configurando uma evasão de 10% na passagem de nível). Dos que se matricularam no próximo ciclo, 16% foram reprovados no primeiro ano. Claudio de Moura Castro, presidente do conselho consultivo da faculdade Pitágoras, avalia que o ensino médio herda as “vítimas” do fraco ciclo fundamental. ­ O ensino fundamental, que é muito ruim, prepara os alunos para o médio. E eles não conseguem acompanhar as aulas. Há uma tradição de decoreba na escola ­ critica Castro. E no ensino médio o aluno é preparado para o vestibular. O número de jovens, no entanto, que cursa o ensino superior no Brasil é baixa. A grande maioria ingressa diretamente no mercado de trabalho. O professor João Batista Araújo e Oliveira, do Instituto Alfa e Beto, diz que, no Brasil, colégio bom é aquele que faz passar para o ensino superior, de preferência em uma instituição pública. O ruim é o que simula essa intenção. Para Oliveira, o vestibular, erroneamente, dita o modelo do ensino médio no país. ­ O currículo das escolas deve ser diversificado e não pautado pelo vestibular ­ sugere. A secretária de Estado de Educação, Tereza Porto, concorda. E atribui grande parte da evasão e dos baixos índices de desempenho “ao fato de os alunos não conseguirem ver sentido prático no que estão aprendendo”. Ela adianta que o empreendedorismo passará a ser disciplina do ensino médio. ­ Para que o aluno tenha uma visão de realização pessoal, saiba definir e atingir objetivos, administrar a própria vida ­ explica Porto.

Professores criam projetos para segurar alunos na escola
50% dos alunos que se matriculam no primeiro ano do ensino médio não conseguem concluir os três anos. 16% dos alunos egressos do ensino fundamental são reprovados no primeiro ano do ensino médio
Para conter a fuga de alunos do ensino médio, professores dispõem de muitas idéias e poucos recursos. Um plano de João de Oliveria Timbó foi selecionada pelo Instituto Unibanco e recebeu R$ 50 mil para colocá-lo em prática. O projeto Gerúndio reúne uma série de atividades que vão de práticas esportivas e trabalhos artísticos a oficinas de leitura. Na verdade, Timbó reuniu no papel uma série de ações que são desenvolvidas no Ciep Ayrton Senna, na Rocinha, de maneira informal. Uma delas impediu a entrada de um aluno para o tráfico. O jovem estava com um pé na boca-de-fumo, quando comentou sobre o novo “trabalho” com o professor. ­ Ele disse que não tinha nada para fazer. Fizemos uma reunião com os professores, e o de música se ofereceu para dar aulas de flauta para ele. O rapaz se entusiasmou e formou um grupo de funk romântico. Hoje arrumou até um emprego ­ conta Timbó, que planeja comprar instrumentos musicais, equipamentos esportivos entre outras coisas.


Emprego e gravidez precoce

Na Escola Estadual Igarapé da Fortaleza, em Santana, no Amapá, a professora Doraci Figueiredo percebeu que trabalho e gravidez precoce eram dois fatores que contribuiam para desanimar os estudantes. Ela dá o exemplo de um aluno que teve o irmão preso, confundido com um bandido. Como o irmão sustentava a família, ele teve que arrumar um emprego, cujo horário o faz chegar atrasado às aulas. ­ Muitas vezes o empregador não deixa que o aluno saia mais cedo, outras é o professor que não tem flexibilidade para negociar ­ conta Doraci. ­ Ele (o aluno) está desanimado, pensando em desistir da escola. Uma das idéias que Dora pôs em ação na escola é fazer com que os alunos tenham uma renda ao vender objetos que criam nas oficinas de artesanato. Mas ainda não conseguiu parcerias para comercializá-los. Desta forma, ela espera que jovens mães ganhem um dinheiro para pode ajudar o sustento dos filhos sem ter que abandonar os estudos. ­ Temos uma aluna que leva o bebê para a escola ­ conta. ­ Amamenta e troca a fralda durante as aulas.


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