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27 11 2008

 

CARTA ABERTA AO GRANDE CHEFE BRANCO

 

DEMETRIO MAGNOLI (*)

 

Prezado deputado Paulo Renato de Souza (PSDB-SP): No 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a Câmara passou a lei de cotas nas universidades e instituições federais de ensino médio, que é a primeira lei racial na historia da República. A aprovação se deu sem o voto dos deputados, por meio de conluio entre lideres.

Você participou destacadamente daquele conluio, renunciando à posição contrária à inclusão da raça na lei que dizia sustentar. Arlindo Chinaglia (PT-SP), o presidente da Câmara, celebrou o desenlace e ofereceu um diagnostico: “Os que têm opiniões divergentes cederam, o que resultou em um grande avanço.” Traduzo a frase do seguinte modo: nada é impossível, nem mesmo derrubar o princípio da igualdade perante a lei, quando a oposição abdica de seus deveres básicos. Estou errado? Serei franco. Surpreendeu-me a sua colaboração, sem a qual o projeto teria que aguardar uma sessão com quorum e ser votado nominalmente pelos deputados. Li num jornal a sua justificativa. De acordo com ela, o projeto não é ruim, pois estabelece cotas raciais proporcionais a composição “racial” da população de cada unidade federativa, de modo que, nas suas palavras, nos estados com predomínio demográfico de brancos, eles terão chances maiores de ingressar nas universidades. Se entendi, você negociou e aprovou o projeto, pois não viu nele desvantagens para a “raça branca”. Posso, então, intitulá-lo Grande Chefe Branco? Não há ironia nisso, acredite.

Os patrocinadores de projetos de cotas no ensino e no mercado de trabalho almejam a condição de lideres negros. Eles usam o fruto envenenado da raça para impulsionar carreiras políticas ou conquistar posições de prestigio em ONGs muito bem financiadas. Mas é claro que a construção de identidades raciais oficiais no Brasil abre possibilidades inusitadas. Se há lideres negros, por que não lideres brancos? (Veja que, para isso, nem se precisa de algo tão aparente quanto a cor da pele: em Ruanda, a vida política girava em torno de líderes tutsis e líderes hutus, ao menos até o genocídio.)

Não nos enganemos. Políticos oportunistas em busca da condição de lideres negros (ou brancos) são elos instrumentais na passagem de leis de raça, mas a concepção de tais leis deve-se aos doutrinários racialistas, que são pessoas dotadas de princípios – e o xis do problema reside no conteúdo desses princípios. Racialismo é a doutrina baseada numa dupla crença: 1) Raças existem, se não na Natureza, ao menos na Historia; 2) “A Historia do mundo não é a história de indivíduos, mas de grupos, não a de nações, mas a de raças.” Empreguei, para expor a segunda crença racialista, uma citação de William Du Bois (1868-1963), o pai fundador da doutrina. Toda lógica das políticas de cotas raciais encontra-se delineada na obra desse americano. Seria inoportuno sugerir que a lesse?

Du Bois era um racialista, não um racista, pois não acreditava em noções de superioridade racial. Ele visitou a Alemanha nazista e gostou do orgulho de raça promovido pelo regime, mas confessou sua repulsa com a perseguição aos judeus. Bem antes, em 1903, escreveu “Os talentosos dez por cento”, no qual expunha a tese de que, por meio de uma criteriosa seleção educacional, um negro em cada dez poderia se converter em líder mundial da raça negra. O artigo começa assim: “A raça negra, como todas as raças, será salva por seus homens excepcionais. O problema da educação entre negros, então, deve antes de tudo concentrar-se nos 10% talentosos…”

Entendeu, agora, a proposta de cotas? Percebeu que ela nada tem a ver com um programa de redução de desigualdades sociais? Nos EUA, as leis de segregação racial definiram quem era branco e quem era negro. Du Bois falava para uma raça oficializada pela discriminação. Por aqui, os racialistas lamentam a ausência de leis desse tipo no nosso passado, pois recaiu sabre os ombros deles a missão de fabricar, na mente das pessoas, a consciência racial e o orgulho de raça.

Fico um tanto triste ao perceber que se procura realizar essa obra a partir da escola. Tarso Genro, na sua passagem pelo Ministério da Educação, ordenou que todas as escolas associem nominalmente cada aluno a uma raça. Você, um ex-ministro da Educação, e Paulo Haddad, o atual titular da pasta, articularam juntos o projeto de cotas raciais aprovado na Câmara. Vocês não são três, mas uma tríade. Juntos, por cima de diferenças partidárias, invadem as aulas de historia e biologia para apagar a lousa onde está escrito que raças humanas não existem, a não ser como invenção do racismo. Mas você liga para o que esta escrito na lousa? Já notou que os brasileiros sentem certa repugnância diante da idéia de serem divididos oficialmente em raças? Por coincidência, no mesmo dia em que vocês aprovavam uma lei que faz exatamente isso, divulgou-se uma pesquisa de opinião publica sabre atitudes diante do terna racial. Encomendada pelo Cidan, uma ONG racialista, a pesquisa fez perguntas viciadas, tendenciosas, a uma amostra da população carioca. Mesmo assim, 63º/o declaram-se contra as cotas raciais.

Mais interessante e que as posturas diante das cotas raciais não variam em função da cor autodeclarada das pessoas. Entre os “brancos”, 63,7% rejeitam essa política; entre os “pardos”, 64%; entre os “pretos”, 62’%. Eu interpreto isso coma uma opção identitária: as pessoas, independentemente da cor da pele, querem ser cidadãos iguais perante a lei. Estou errado? Não ha motivo para imaginar que os demais brasileiros pensem diferente dos cariocas. Apesar da macha propaganda racialista veiculada pelo Estado, os cidadãos percebem o mal que a pedagogia das rajas faz aos jovens estudantes.

A coincidência entre a divulgação da pesquisa e a aprovação por conchavo da lei de cotas coloca uma pergunta constrangedora: onde está a representação parlamentar da maioria que rejeita as leis raciais?

 

(*) DEMETRIO MAGNOLI é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP.

Publicado em “O GLOBO” PRIMEIRO CADERNO – 27/1 1/2008

 

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