CRIANÇAS DA REDE MUNICIPAL VÃO TER AULAS DE RELIGIÃO

6 11 2008

Compromisso foi assumido por Paes durante a campanha para ganhar o apoio da Igreja. Ensino incluirá vários credos

Michel Alecrim do “DIA”

 

Rio – O prefeito eleito Eduardo Paes garantiu ontem ao arcebispo do Rio, cardeal Dom Eusébio Scheid, que vai introduzir o ensino religioso nas escolas municipais. Após o encontro, Paes reafirmou que a promessa será cumprida. O cardeal deixou claro que na campanha deu apoio ao ex-candidato por conta da defesa de princípios morais, principalmente em relação ao aborto e às drogas. “Ele (Paes) ratificou e condicionou o voto de muitos. Porque nós estávamos realmente querendo isso como um princípio de governo”, explicou o arcebispo, em relação ao ensino religioso. Dom Eusébio disse que, apesar de ter mantido um bom relacionamento com o prefeito Cesar Maia, ele teria “deixado a desejar” nesse ponto, já que a religião não é ensinada na escolas municipais, ao contrário do que ocorre na rede estadual. De acordo com o cardeal, o município já pode pôr o ensino em prática, já que há profissionais habilitados não só entre os católicos, mas também em outras religiões. O material didático também está aprovado e disponível. Apesar de esperar a criação da cadeira o mais rápido possível, ele admite que a oferta será gradual. Paes também previu uma implantação em fases e garantiu que o ensino será opcional — nenhum aluno será obrigado a estudar religião à qual não pertence. “Durante o processo eleitoral, eu já tinha conversado com o cardeal, e esse é um compromisso que eu pretendo cumprir. Não dá para fazer isso do dia para a noite, mas com respeito ao Estado laico e às outras religiões, é uma postura bastante adequada”, afirmou Paes, que pretende estabelecer parcerias com a Igreja Católica e outras religiões que tenham atuação na assistência social. Sem citar nomes, Dom Eusébio criticou adversários de Paes que não teriam firmado os mesmos compromissos éticos e morais. Segundo ele, a Igreja não poderia ficar indiferente a políticos que já defenderam a liberação das drogas, como Fernando Gabeira (PV), e o aborto, como Jandira Feghali (PCdoB).

RELIGIOSOS APÓIAM, EDUCADORES DISCORDAM

A adoção do ensino religioso nas escolas municipais divide educadores e religiosos. O pastor Odalirio Luis da Costa, da Igreja Congregacional de Acari, aprovou a medida. “Ele vai gerar o debate em sala de aula e em casa com os pais, além de despertar a curiosidade nos estudantes sobre a religião, seja ela qual for”, acredita. Para o pastor evangélico, o ensino religioso nas escolas permitirá também que os alunos tenham contato com a teoria criacionista. “As escolas ensinam que o homem veio do macaco. Com a religião, as crianças saberão que o homem veio de Deus”, diz. Para Estela Scheinvar, da Faculdade de Formação de Professores da Uerj, a inclusão da disciplina nas escolas da rede pública vai contra antigas reivindicações da sociedade para o ensino brasileiro. “Desde a década de 20, sempre se buscou ensino gratuito, universal e laico (não-religioso)”, diz. A falta de professores e infra-estrutura nas escolas da rede pública são entraves apontados por Estela para difundir a catequese. “Os conteúdos religiosos são formas de demarcar espaços de controle político. A maior bancada do Congresso é formada por grupos religiosos”, critica. Nas escolas da rede estadual, o ensino religioso é confessional e plural. Ou seja, o estudante informa a sua religião para ter aulas, em turmas separadas, com professores concursados ligados a determinadas instituições religiosas, como a evangélica. Encontros com PT e PCdoB. O prefeito eleito se encontrou ontem com representantes do PCdoB e do PT, que o apoiaram no segundo turno das eleições. Ele confirmou que as legendas terão espaço no primeiro escalão de seu governo, mas não informou que secretarias poderiam ocupar e que nomes seriam nomeados. De manhã, Paes recebeu em casa a ex-candidata Jandira Feghali e a presidente estadual do PCdoB, Ana Rocha. À tarde, na Fundação Getúlio Vargas (FGV), o prefeito eleito recebeu o presidente estadual do PT, Alberto Cantalice, acompanhado do presidente do diretório municipal, Alberes Lima, e do vereador Adilson Pires, reeleito para a Câmara. Os partidos vão discutir internamente que pedido farão a Paes. Ele fez questão de afirmar que, apesar de poder nomear políticos, também vai observar o perfil técnico do indicado. O novo prefeito ainda vai se encontrar com representantes do PDT e do PSB, outros dois partidos de esquerda que o apoiaram.

 

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