A FILOSOFIA DO “PRÍNCIPE DO GUETO” (O caso Eloá)

19 10 2008

A FILOSOFIA DO “PRÍNCIPE DO GUETO” (O caso Eloá)

ou

Ética? Que diabo é isso?

Além da filosofia em seu aspecto acadêmico, tradicional, canônico, existe também outra filosofia, digamos popular que podemos reduzir à uma forma particular de “visão do mundo”, “cosmo visão”, se quisermos abusar da técnica ou “weltanchaung” para justificar as aulas de alemão. Algo entre a dóxa (opinião) e a certeza dos fatos, é um caminho que divide imprecisamente, um saber “só de experiência feito” e um senso comum ainda não reconstruído pelas regras do racionalismo lógico.

Filosofia de vida, em suma…

É esta filosofia para consumo próprio, esta seleção de saberes particulares que nos torna a todos filósofos, mesmo que não sejamos – no geral –  profissionais da filosofia. Pois temos uma moral própria, uma tabela de valores com a qual confrontamos os fatos da vida, a eles atribuindo consistência e peso: certo e errado; bom e mau; justo e injusto; belo e feio.

A lista – sempre dicotômica – é infinita…

Repentinamente, uma nota discordante surge. Algo que não se enquadra em nossa tabela (particular) de valores por apresentar uma dimensão que não pertence ao nosso mundo. Falo do aspecto dinâmico da irracionalidade (humana?), das manifestações do caos no plano da realidade, da combinação randômica de fatores que produzem ações que deveriam envergonhar a nossa raça (humana?).

Seja o caso do autonomeado “príncipe do gueto”, ícone da hora e da mídia. Uma criança de 12 anos tem um relacionamento com um adulto de 19 e após três anos e duas balas esta mistura de alguma tragédia, pouca comédia e muita incompetência repercute na nossa sociedade do espetáculo até que entre em cena o próximo número no grande circo midiático.

É aqui que eu saco do bolso a minha tabela de valores e começo a comparar as cores que ela traz com as nuances que a teratológica atualidade deste caso apresenta.  

A gênese: uma criança e um adulto. O que é isto? Que espécie de afeto pode surgir neste caso que não seja objeto do código penal? E onde estava a família que deixou isto acontecer? Gritou o advogado: “prova de amor”. Responde aí Aristóteles: “Amar é querer o bem da pessoa amada”. Não consta que espalhar a massa encefálica da pessoa amada esteja entre as provas de amor mais comuns…

De volta ao básico: amor e paixão são coisas muito, muito diferentes, a paixão é um afeto violento, intenso, destarte, o ódio é uma paixão.

De volta à minha tabela de valores: qual foi o papel (nada) ético que a imprensa teve neste caso? Embuçada do “direito de informar“ e privilegiando o “furo”, esticou até a ruptura o limite da ética e da segurança e terminou por jogar baldes e baldes de gasolina na fogueira ególatra do ator principal.

O que temos aqui? Quem (o que) é o “príncipe do gueto”? Apenas uma falha na linha de montagem da natureza, um desvio na corrente evolucionária, uma potência de nada, um embrião de ninguém. Um ninguém que jamais, enfatizo jamais, seria objeto de atenção do circo midiático, não fosse pelo motivo que sempre coloca os holofotes sobre estas não-pessoas – vide a novilíngua -: o comportamento anti-social, a ação nefasta, o crime, em resumo: a prática efetiva da maldade. 

Repentinamente, esta não-pessoa, que em circunstâncias normais em um mundo normal, (isto existe?), não mereceria um segundo olhar, torna-se o centro do universo, demiurgo do seu próprio cosmo; autor, ator, diretor e (também) ditador, do seu próprio “big brother”, (Orwell, sempre um profeta). Retroalimentado pela televisão (ligada!), ele, o “príncipe”, manda e desmanda, cria e destrói, faz e acontece. E manda trocar o negociador, dá entrevistas (ao vivo!), exige garantias,  cria e desfaz as regras do seu jogo insano, só para assistir o efeito dos seus atos imediatamente repercutidos na TV.

 Sejamos óbvios: uma não-pessoa só poderia construir um não-mundo. O que poderíamos esperar de alguém cujo maior poder de decisão até aquele instante deve ter sido no máximo optar entre: “de queijo ou de presunto?”

De repente pelas tramas do destino aí está este subproduto de um submeio comandando coronéis, advogados, promotores, regendo os acontecimentos no ritmo da sua patológica vontade.

Ironia dos deuses… Este sociopata e seu circo dos horrores – através da mídia (sempre ela) –  entra em nossas casas quando deveria no máximo entrar em um hospício

O problema do não-momento criado por tal não-pessoa, é ser finito como tudo neste plano material, tal simulacro de poder quando findasse, só poderia ter um desfecho dentre dois possíveis, na primeira opção o “príncipe do gueto”, se entregaria sem danos colaterais e voltaria para sua condição de não-gente, após prestar contas com a justiça. Ora, tal alternativa o reduziria ao nada que ele, (em ato e potência), sempre foi e isto seria um retrocesso, para quem foi, ainda que precária e temporariamente, senhor de tantos destinos. Como iria viver sem nenhum poder, alguém que durante algum tempo concentrou tanto poder? Dante registrou que a maior queixa de Paolo e Francesca no inferno é justamente: “Recordar os tempos felizes na miséria”.

A sua segunda opção era agir de forma contrária ao pensamento de Santo Agostinho e fazer o maior mal para o maior número de pessoas, ou melhormente: seguir a sua natureza, praticando o ato destruidor que sempre esteve embutido na sua potência de verme.

Por conclusão vejo que a ética da família no mínimo consentiu e no máximo  alimentou uma união de afetos que não prenunciava um bom resultado. Todavia depois que os dados foram lançados, a mídia contribuiu de maneira primordial para a realimentação dos delírios do “príncipe do gueto”. Muitos dedos apertaram o gatilho daquele revólver: famílias desestruturadas, educação precária, ambiente anti-social, polícia despreparada, imprensa sem ética etc. A lista se estende e cresce.

Guardo minha tabela de valores, agora sem nenhuma serventia, ela não explica um caso tão absurdo quanto trágico, bem que gostaria de respostas já que tenho filhos e um sentimento (acho que o nome técnico é projeção) – ilumina um letreiro mental onde brilha a pergunta: ”E se Eloá fosse minha filha?”.

Quando alguém falar em ética doravante eu perguntarei sempre: Ética? Que diabo é isto?

 

 

 

 

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