PESQUISA MOSTRA QUE RENDIMENTO ESTÁ LIGADO À QUALIFICAÇÃO DO PROFESSOR

12 10 2008

Carolina Bellei, Jornal do Brasil

RIO – Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ analisou o desempenho dos alunos de escolas públicas e as influências do território. Para a surpresa, os estudantes da Zona Sul têm risco 43% maior de terem atraso escolar do que os da Zona Norte e Oeste. Mas quando é examinado o rendimento dos alunos, a Zona Oeste é a que apresenta o menor grau de aprendizagem. A base da pesquisa foi o resultados da Prova Brasil, do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), realizado no ano passado. Para Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, coordenador do Observatório das Metrópoles e professor do Ippur, os ítens observados não representam a realidade de todas as escolas públicas e há fatores que podem alterar o resultado de cada instituição. Mas na maioria dos casos, Luiz Cesar acredita que o ensino está diretamente ligado com a experiência dos professores.

– Observamos que nas escolas da Zona Sul os professores são mais qualificados, têm mais experiência e às vezes pós-graduação. Com isso, são mais rígidos no ensino e requisitam mais do aluno. Provavelmente estão mais imbuídos para a escola funcionar de fato e acabam reprovando mais os alunos – analisa o professor Luiz Cesar. – Já em zonas mais carentes é o contrário. Os professores aceitam mais e acabam passando os alunos com menor grau de aprendizagem.

Segundo a professora Marisa Ueda, que dá aula na Escola Municipal Santo Tomás de Aquino, no Leme – uma das escolas que apresentou melhor rendimento na pesquisa do Ippur – embora todos os profissionais tenham que fazer concurso para ingressar na rede pública, as instituições da Zona Sul e de áreas mais nobres da Zona Norte são as mais procuradas. E por isso, exigem uma pontuação maior nas provas. Outro ítem também considerado é o de tempo de experiência do profissional na rede pública.

– Acontece uma distribuição perversa dos profissionais. A Zona Oeste, por exemplo, é uma das áreas que mais sofre com isso – explica a professora do Ippur, Mariane Campelo Koslinski. – Os professores menos qualificados acabam indo para as áreas mais carentes. E essa região é onde os alunos apresentaram o menor índice pelo Ideb.

Carência de professores

Professor há nove anos na rede pública, Augusto Assumpção confirma que não são todos os profissionais que aceitam trabalhar em áreas mais distantes. Ele mora em Copacabana e gasta cerca de quatro horas por dia para chegar a Bangu, onde trabalha.

– Não existem professores na região para atender a necessidade local – afirma Augusto, que conseguiu se beneficiar com a carência de professores na Zona Oeste, fazendo horas extras. A Secretaria Municipal de Educação não concorda que os professores da Zona Sul sejam mais qualificados e com mais experiências. De acordo com nota enviada, “todos os professores ingressam na rede por concurso público e é pré-requisito a formação para o exercício do magistério. Grande parte deles, atuando em todas as áreas da cidade, possui pós-graduação e a secretaria oferece ações de formação”. Ainda de acordo com a secretaria, as 13 escolas da rede que tiveram os maiores índices no Ideb estão distribuídas por todas as áreas da cidade. Outro fator que influência no aluno é a realidade onde mora e a vizinhança com que convive. Quando nem na escola o estudante consegue um ambiente fora da violência e de todas as carências que fazem sua rotina, a tendência é que fique mais desmotivado.

– Mesmo em áreas onde o desempenho escolar é melhor, algumas escolas têm um rendimento bem baixo por estarem em zonas de risco, onde o acesso é ruim, a violência e os problemas urbanos estão muito próximos – revela Luiz Cesar. – No Cantagalo, em Ipanema, tem uma escola que fica na em frete da boca de fumo. Na mesma comunidade tem outra mais afastada, já no asfalto. O desempenho é nitidamente melhor quanto mais afastado do morro. Uma das maiores barreiras para os professores, segundo a professora Leila Barros, é vencer a falta perspectivas dos alunos. – Eles sonham em uma vida melhor, mas não conseguem entender que o estudo é fundamental para isso. A falta de perspectiva é tão grande, que já ouvi um aluno dizendo que quer ser vaga certa quando crescer.

A estudante Ana Carolina, 12 anos, que estuda no Leme e mora no Morro da Babilônia, sonha mais alto. Incentivada pela família, sabe já o que esperar do futuro: quer ser advogada e lutar pelos direitos das crianças e adolescentes.

 

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