ENTREVISTA SOBRE EDUCAÇÃO (Excelente!)

12 10 2008

EDUCAÇÃO É PRIORIDADE SÓ DA ELITE

Economista mostra que tema não garante voto em municípios brasileiros mais pobres

Rodrigo de Almeida do Jornal do Brasil

Aos 26 anos, o economista Igor Barenboim exibe um currículo invejável: graduado na PUC do Rio, onde ingressou aos 16, tem mestrado e doutorado na Universidade Harvard, passou pela Cepal (a Comissão Econômica para América Latina e Caribe, da ONU), foi um dos primeiros contratados da Gávea Investimentos, fundada pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, e é consultor de empresas. Barenboim prepara um livro em que desmistifica a desigualdade brasileira.

Num de seus últimos estudos produzidos em Harvard, analisa a relação entre crime e desigualdade nas favelas do Rio. Em outro, escrito com Leonardo Bursztyn, compara os níveis de prioridade dados pelo eleitor à educação. É deste último que trata a entrevista a seguir, na qual o economista explica, entre outras coisas, por que a educação foi um tema menor na disputa do Rio.

Em seu estudo, você diz que quanto mais rico o eleitor maior a prioridade dada à educação. Por que esse descompasso?

Pensei nisso quando vi o senador Cristovam Buarque (PDT) ser candidato à Presidência, falar tanto em educação e conseguir poucos votos. Por que a falta de apelo? Se olharmos os países ricos, quando há mais democracia crescem os investimentos em educação. Em países pobres, não. Façamos uma comparação. Você entraria numa aposta com o Bill Gates? Você paga a ele US$ 1 milhão ou ele lhe paga. Você entraria nessa aposta, mesmo com uma moeda viciada, com maior probabilidade de ter um resultado positivo? Não, porque US$ 1 milhão para ele não faria a menor diferença. Mas, para você, sim. Ele não terá problemas se entrar em 100 apostas como essa. Mas você só tem dinheiro para entrar em uma. Com educação é a mesma coisa, embora num nível um pouco menor. Para uma família muito pobre, mandar a criança para a escola tem um valor esperado positivo, mas isso não significa que a criança vá, no fim das contas, ganhar mais dinheiro.

Aplicando esse mecanismo vocês observaram os resultados de pesquisas de opinião. A escala de prioridades se mostra diferente conforme a renda. Não é um caminho natural?

Dentro das políticas anticorrupção, pró-educação, segurança, quanto mais rico o cidadão, maior a probabilidade de citar educação. Quanto mais pobre, menor a probabilidade. E maior é a probabilidade de apontar questões como segurança e programas como o Bolsa Família.

O que há de diferente entre a eleição municipal e a presidencial nessa escolha de prioridades em relação à educação?

Olhamos a eleição municipal porque, no Brasil, metade dos gastos dos municípios é com a educação básica. Isso é estabelecido pela Constituição. E aqui o voto é obrigatório, diferentemente dos países ricos, onde a população pobre vota menos. Tentamos então desenvolver uma estatística se a probabilidade do político se reeleger aumenta quando crescem os gastos em educação. A conclusão é que, em municípios pobres, educação não ganha eleição. Em municípios ricos, ganha. Em municípios pobres, programas de transferência de renda ganham eleição. Em municípios ricos, não.

De que maneira essa relação resulta de um cálculo ou é uma demonstração de valores?

Como economista, tentamos explorar o lado do cálculo racional. Claro que a cultura e os valores da família são importantes. Mas usamos a hipótese de que as pessoas são racionais. Significa que entendem as informações e o retorno esperado das decisões que tomam. Quem nunca estudou não é racional por essa definição. Não entende que, se mandar o filho para a escola, o valor esperado pode aumentar.

Há uma tese de corrente de que o Brasil gasta muito, e mal, em educação. Onde erramos?

O Brasil gasta 5% do PIB com educação. É um nível normal. Para países em desenvolvimento é até alto. O perfil do gasto é que é especial. Gastamos demais com ensino superior. Desses 5%, 2% vão para a educação universitária. E o percentual da população que tem acesso à universidade é mínimo. O Estado, que na teoria taxa a população para igualar a renda, redistribui muito mal. O subsídio para a educação universitária acaba sendo um subsídio para os mais ricos.

Os municípios são responsáveis pela educação básica. O que sugere aos prefeitos que acabaram de ser eleitos ou estão disputando o segundo turno?

Educação tem de ser um tema-chave. Como economista político, insisto que precisamos reorganizar o gasto, não diminuí-lo. Nos EUA há um projeto-piloto próximo de Boston, que se chama escola charter. O governo transfere aos pais e professores dessa escola a responsabilidade pela definição das prioridades. Envia um orçamento e eles fazem a gestão. Isso tem mostrado que a performance das crianças com o mesmo dinheiro público tem sido melhor nesse modelo de gestão. Trazendo para o Brasil, o burocrata em Brasília decide o mesmo currículo para o aluno do Rio e de Rondonópolis. Se descentralizarmos um pouco e deixar os pais e professores de cada região decidirem, se dermos um pouquinho de latitude para eles, as crianças vão se interessar mais diante de um currículo próximo de sua realidade. É uma reforma que pode ser feita sem custos.

Não é uma terceirização?

Não. É uma divisão de responsabilidades. Por isso existe direito de propriedade, porque as pessoas cuidam mais do que é delas. Se não de responsabilidade, no fim das contas tudo é culpa do governo.

Qual a sua avaliação sobre o que pensam Fernando Gabeira e Eduardo Paes sobre educação?

Falou-se e se fala muito pouco em educação nesta campanha. Tem sido pouco debatido, especialmente tendo em vista o peso da educação no orçamento municipal. Eu me surpreendi. Acho que o Eduardo Paes tem falado mais claramente sobre isso, quando ataca mais fortemente a aprovação automática. Isso é positivo. A única proposta concreta deles sobre educação, sou a favor. Mas é um tema de campanha muito pequeno diante da importância.

É desconhecimento do assunto ou um sinal de que o tema não é importante para o carioca?

É o foco na população que eles não têm. Gabeira e Paes tiveram um apelo maior na elite. Eles precisaram focar nas prioridades que não são da elite. No meu estudo, mostro que a prioridade da elite é a educação, mas a prioridade das classes mais baixas, não. Também não dá para falar de tudo. Tem de ter um foco. No Brasil, infelizmente, temos prioridades muito mais básicas que não são abordadas pelos políticos.

 

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: