MÁ QUALIDADE DO ENSINO FAZ PAI TIRAR FILHOS DE ESCOLA

20 08 2008

Do G1, em São Paulo

2º dia de provas tranqüiliza meninos ensinados pelos pais

De acordo com o pai, jovens foram bem em inglês e história. Nesta quarta (20) será a vez das avaliações de geografia e de artes. Os meninos ensinados pela família, David, 15 anos e Jonatas, 14 anos, completaram metade das provas determinadas pela Justiça. Nesta terça-feira (19) eles fizeram os exames de história e inglês. Como a lei brasileira não prevê que adolescentes fiquem fora da escola, os jovens mineiros estão sendo testados para mostrar que não foram privados de educação pelos pais. “A prova foi mais fácil. Eles disseram que foram bem nas duas. Estão mais tranqüilos”, contou o pai, Cleber de Andrade Nunes. No primeiro dia de testes, os dois enfrentaram dificuldades com ciências. Nesta quarta-feira (20), os adolescentes farão as provas de artes e geografia. Segundo o pai, há a expectativa de que os jovens tenham bom desempenho no terceiro dia de avaliação. “Eles já estavam mais preparados para essas matérias, porque estudaram para o vestibular de uma universidade particular que prestaram em janeiro. Não são assuntos novos para eles. E não deu tempo de esquecer ainda”, afirma.

Maratona

Filhos do casal Cleber e Elisabeth Nunes, de Tímóteo (216 Km de Belo Horizonte), a dupla de meninos terá de enfrentar, ao todo, quatro dias de exames, das 7h30 às 11h, para mostrar para a Justiça que possuem conhecimentos gerais iguais aos alunos que freqüentam a escola. As provas são aplicadas no Centro Municipal de Educação Integrada, em Timóteo. A Justiça havia determinado que as provas seriam aplicadas nos dias 28 e 29 de julho, mas os exames foram adiados porque a Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais pediu prorrogação do prazo, devido ao recesso escolar dos professores. A notificação com a nova data da prova chegou no dia 12 de agosto e incluía quatro novas matérias, o que preocupou o pai dos meninos. 

Número de disciplinas aumentou

De acordo com Nunes, a primeira notificação judicial determinava que os garotos deveriam fazer provas de matemática, geografia, ciências e história – já que os irmãos afirmaram para o juiz que estudam em casa português, inglês, hebraico e informática. Só que a nova notificação foi diferente: David e Jonatas terão de fazer provas de português, matemática, inglês, geografia, história, ciências, artes, e educação física (incluindo conhecimentos sobre a história do handball, basquete, futebol, atletismo e outros esportes de alto rendimento). As provas foram elaboradas por uma comissão de 16 professores das secretarias municipal e estadual de Educação e os meninos só receberam o conteúdo programático das provas uma semana antes da avaliação. Segundo Nunes, cada disciplina terá 20 questões, sendo 15 delas de múltipla escolha e cinco discursivas – completamente diferente da proposta anterior, que previa 30 questões de múltipla escolha em cada disciplina e que os estudantes entregassem os rascunhos da prova de matemática. 

Pressão e aulas particulares

Para dar conta de estudar tantas disciplinas, os meninos tiveram aulas particulares de matemática e enfrentam uma maratona diária de estudos na biblioteca da cidade, para que possam ficar mais sossegados, sem interrupções. Apesar do sacrifício, o pai acredita que os meninos têm condições de ser aprovados nas provas, que terminam só na quinta-feira (21). “O que eu queria mesmo é que outros alunos da rede pública fossem submetidos ao mesmo exame, só para a gente fazer uma comparação justa”, disse Nunes.

  

A decisão de tirar da escola e os processos na Justiça

O casal está sendo processado na área cível (por causa do descumprimento do ECA) e também criminalmente (por abandono intelectual) porque tirou os filhos da escola há dois anos, sob a justificativa da má-qualidade do ensino brasileiro. A legislação brasileira não permite a educação em casa e obriga que as crianças sejam matriculadas nas escolas.

Nunes viajou para os Estados Unidos (onde o método é permitido) e conversou com famílias que educaram os filhos em casa. Então, se encantou com o projeto e resolveu aplicar a mesma coisa dentro de casa. “Comprei todo material que os americanos usam. Eu não concordo que meus filhos fiquem presos a um currículo”, disse. Um conhecido da família resolveu dedurar a decisão de Nunes para a o Conselho Tutelar – que foi investigar o caso. “Eles chegaram aqui achando que a gente estava explorando nossos filhos, sabe? Colocando eles para trabalhar. E não é nada disso. Eles estudam seis horas por dia como qualquer outro jovem da mesma idade”, disse. Questionado sobre a importância de manter os meninos na escola para que eles tenham amigos e outro convívio social que não seja restrito à casa da família, Nunes tem a resposta pronta. “O único problema que eu vejo é que os horários deles podem ser diferentes dos horários dos meus filhos e isso acaba sendo um elemento dificultador. Mas a escola não é e nem será o último ambiente socializador. Meus filhos brincam e têm amigos”, afirmou. No processo cível, o casal foi condenado a pagar 12 salários mínimos e rematricular os filhos na escola. Nunes recorreu da decisão e agora aguarda ansioso o momento em que os filhos farão as provas para, enfim, mostrarem se têm ou não capacidade intelectual.

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