O governo deposto pela bandidagem

2 07 2008
Por Augusto Nunes (do Jornal do Brasil)
“Eu só pedi justiça, , mas ele não pode fazer nada por mim”, disse à saída do Palácio Guanabara a brasileira Lilian Gonzaga da Costa. Ele é o presidente Lula. Ela é mãe de Wellington Gonzaga da Costa, 19 anos, um dos três jovens capturados no Morro da Providência por 11 militares do Exército, condenados à morte precedida de tortura pelo tribunal improvisado num quartel e presenteados ao pelotão de matadores escalados pela chefia da quadrilha de traficantes que domina o Morro da Mineira.

Os demais parentes dos assassinados deixaram em silêncio o local do encontro com o presidente, que os recebeu ao lado do anfitrião Sérgio Cabral. Só Lilian falou, para informar que não havia o que falar. Não parecia indignada, apenas triste, ao pronunciar a frase que resumiu a tragédia apavorante: os poderes do chefe de governo, ou de qualquer outro figurão da República, não se estendem ao território que o Estado brasileiro só controla no mapa oficial. O governo foi deposto há muito tempo na zona de exclusão forjada no Rio por quase 800 favelas, e consolidada pela inépcia criminosa dos pais da pátria.

Ali surgiu o que hoje é um país independente, administrativamente autônomo e crescentemente hostil ao Brasil de que já fez parte. Não é presidido pelo presidente Lula, nem governado pelo governador do Rio. Cada morro é administrado por uma das incontáveis quadrilhas formadas por traficantes de drogas ou criminosos com carteirinha de policial. E cada favela é presidida pelo chefão da bandidagem.

Os comandantes das províncias não se limitam a concentrar todas as atribuições repartidas, no Brasil vizinho, entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Nomeiam, demitem, soltam, prendem – e também matam, torturam, fazem a guerra ou impõem a paz. E decidem quem entra ou quem sai. Todos os forasteiros que moram ao nível do mar só cruzam a fronteira se autorizados pelo chefão. Para visitar alguma favela, até o maior dos presidentes do Brasil precisa pedir licença.

E tomar cuidado, porque o salvo-conduto só garante o acesso, não a integridade física. Lula, por exemplo, achou insuficiente a permissão concedida pelos “líderes da comunidade”, como são tratados em cerimônias oficiais ou reuniões protocolares os emissários dos ditadores das favelas. Antes de transmitir à turma dos barracos a notícia do século – o PAC estava chegando ao Complexo do Alemão, e pelas mãos da mãe – Lula requisitou um cinturão de segurança de dar inveja a qualquer presidente americano.

O comportamento de outros pais da pátria sugerem que Lula é um temerário. O generalíssimo Nelson Jobim, veterano da guerra da Amazônia, foi pedir desculpas às famílias mutiladas pelo massacre escoltado pelo general que chefia o Comando Militar do Leste, além da tropa de bom tamanho. O senador Marcelo Crivella recrutou 250 soldados para combater no canteiro de votos plantado na Providência. Sérgio Cabral não aprecia esse tipo de visita. Prefere mandar a polícia para representá-lo. E o prefeito Cesar Maia não saberia como é a parte alta de uma favela se os assessores não tivessem providenciado um punhado de fotografias aéreas.

Se tivessem juízo, todos já se teriam rendido, com a humildade que engrandece, à constatação inevitável: como o território ocupado pelas Farc na Colômbia, os morros do Rio estão fora do controle do governo. Para retomá-los, será necessário extrair os tumores que devastam o organismo policial, reconstruir um sistema de segurança em frangalhos e reexaminar o papel das Forças Armadas. A mesma Constituição que veda a interferência do Exército em conflitos urbanos também lhe atribui a defesa da integridade territorial. O país ficou menor com a amputação dos morros.

Mas será melhor deixar tudo como está se o governo não puder garantir a imediata presença do Estado num universo onde nunca existiu. As quadrilhas não soltaram um só tiro para assumir o poder nos morros. Ocuparam, sem resistência, uma terra abandonada.

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