Cresce número de adultos na escola; investimentos recuam

29 06 2008

(Do “DIA”)

Segundo o MEC, matrículas de estudantes em Educação de Jovens e Adultos cresceram 344% nos últimos 10 anos só no Ensino Médio da rede pública, mas investimentos estão estagnados

Rio – Vergonha, falta de tempo e de dinheiro e o cansaço após uma longa jornada de trabalho. Vencidos esses obstáculos, alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) têm mais um desafio pela frente: superar a precariedade do ensino nas escolas públicas brasileiras. Enquanto cresce o número de estudantes que tentam correr atrás do tempo perdido, os investimentos nesse segmento recuaram. E os reflexos estão nas salas de aula.

Nos últimos 10 anos, só no Ensino Médio o aumento de matrículas foi de 344%. Na rede municipal do Rio, por exemplo, o número de alunos, de 1998 até este ano, aumentou 764%. O Ministério da Educação (MEC) estima, porém, que, de 2000 a 2004, gastou-se, em todo o País, em média 0,54% do Produto Interno Bruto com educação de alunos em idade acima da adequada para a série de matrícula, sem aumento proporcional ao crescimento das matrículas.

Na prática, o valor pode ser ainda menor, pois a estimativa é distorcida, calculada como se o aluno de EJA representasse o mesmo gasto de um aluno do ensino regular. Para o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica, no entanto, um estudante de EJA equivale a 0,7 de outro aluno. A rede estadual do Rio reduziu os gastos com EJA, de cerca de R$ 9 milhões liquidados em 2002, para R$ 1,2 milhão em 2005.

Na sala de aula, os alunos penam, sem recursos, sem material didático apropriado, laboratórios e, muitas vezes, com professores sem a formação adequada. Professora de prática e teoria de alfabetização, Ilana Cardoso de Gouveia, do Instituto de Educação Clélia Nunce, em São Gonçalo, conta que, no curso Normal, a escola elege uma prioridade entre três opções: alunos descendentes de indígenas, portadores de necessidades especiais ou EJA, que não é disciplina obrigatória. No entanto, para ela, ensinar a crianças e adultos é diferente: “A gente vê muita inadequação. Na temática, no vocabulário, nos temas de interesse”.

Não é de estranhar que os estudantes tenham desempenho pífio. Os resultados de EJA na rede pública do Rio no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2007 foram ainda piores do que os do ensino público regular. Aluna da escola com pior desempenho do Rio em EJA — o Colégio Estadual Maurício de Medeiros, no Méier, que tirou nota 35,53 numa escala de 0 a 100 —, a empregada doméstica Aldenora Marques de Lima, 47 anos, cursa a 6ª série do Ensino Fundamental. Mas admite: não sabe ler nem escrever corretamente, sonho que a levou de volta à sala de aula. Mãe de dois filhos, ela trabalha das 7h às 19h e corre para não perder o primeiro período, mas sabe que nada contra a corrente: “A gente passa de um ano para o outro mesmo indo mal nas provas. Sei que estou numa série em que não deveria estar. Acho que deveria estar na 2ª, porque ainda tenho dificuldade para ler e escrever. Precisaria ter uma avaliação para ver se o aluno tem capacidade para estar naquele ano”.

Para Maria do Socorro, 59 anos, o tempo de escola passou. Ela se formou no Ensino Médio no ano passado, no Colégio Estadual Antônio Maria Teixeira Filho, no Leblon. O diploma é orgulho da diarista. Embora ainda mal saiba escrever, ela planeja — e, com o curso completo, ela pode — tentar ingressar numa universidade.

INVESTIMENTO: ENSINO MELHOR

O bom desempenho de alunos do ensino regular da rede privada diante dos matriculados em colégios públicos se repete quando o assunto é a Educação de Jovens e Adultos. De acordo com resultados do Enem, a média de estudantes em EJA da rede pública do País ficou em 41,150 pontos contra 48,612 pontos daqueles inscritos em projetos da rede privada.

No Rio, colégios tradicionais como Santo Inácio, em Botafogo, e São Vicente de Paula, no Cosme Velho, abriram as portas dos cursos noturnos há mais de três décadas. O Companhia de Maria, no Grajaú, também faz o mesmo desde 2001. As aulas fazem parte de projetos sociais para pessoas de baixa renda e são gratuitas.

Com 1.310 alunos, o Santo Inácio oferece desde a alfabetização até o fim do Ensino Fundamental. Quem quiser pode participar ainda de cursos profissionalizantes em Administração, Enfermagem e Patologia Clínica.

A qualidade do ensino, condições dignas de estudo e professores capacitados deram novo ânimo à doméstica Maria Raimunda Viana da Silva, 57. “Fiquei 12 anos com uma patroa que me dava até plano de saúde, mas não queria que eu estudasse. Deixei o emprego, estava na hora de cuidar de mim”, disse Maria. No Companhia de Maria, Aline Santos, moradora do Morro do Andaraí, foi aprovada no curso de Pedagogia de UERJ, UFRJ e UFF.

Ausência de transparência sobre gastos

O MEC admite não ter controle sobre os gastos municipais e estaduais com o Programa de Educação de Jovens e Adultos (Peja). A Secretaria Municipal de Educação do Rio não disse quanto gasta com o programa. Limitou-se a informar que “os recursos destinam-se ao atendimento das demandas de todos os segmentos de acordo com o planejamento anual elaborado pelos órgãos”.

Já a Secretaria Estadual de Educação afirmou que o investimento é proporcional ao número de alunos. Para este ano, o planejamento de recursos para merenda e manutenção das escolas de regime presencial de EJA totaliza R$ 2,246 bilhões. Presidente da Comissão de Educação da Alerj, o deputado Comte Bittencourt observa, no entanto, que apenas 10% dos recursos previstos no Orçamento deste ano para EJA foram aplicados até agora.

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