PROFESSOR VIRA PROFESSORA, MAS ENFRENTA PRECONCEITO EM ESCOLA MUNICIPAL DE BELFORD ROXO

10 06 2008

(Do Extra) 

Aos 20 anos, a professora de inglês Faiza Khálida Coutinho usou seu primeiro vestido de festa e dançou de rostinho colado. Mas precisou esperar 11 anos pelo sonhado primeiro beijo. No meio do caminho, aconteceu o grande vôo de sua vida. Mais precisamente para a Tailândia, onde ela fez a operação de mudança de sexo por US$ 5.500 dólares (R$ 8.900), em 2004. Dinheiro poupado centavo a centavo pela professora da rede municipal de Belford Roxo. – Minha adolescência foi uma depressão. As pessoas me viam como homossexual. Era uma agressão. Eu me refugiava em casa e na Igreja. Desde o momento que peguei o avião para a Tailândia foi só alegria e paz – conta a professora de 35 anos. Após conquistar a identidade feminina legalmente, Faiza destruiu todos os documentos antigos e ateou fogo às fotos da adolescência. Mas a operação para a troca de sexo não foi o fim de um conto-de-fadas. Apesar do sucesso do procedimento cirúrgico, Faiza sofre até hoje as marcas deixadas pela discriminação:

– O preconceito é velado. Recebo muito apoio dos meus alunos, da minha diretora Leci, mas já sofri muito. Todo dia é uma luta. Hoje, ela enfrenta mais uma briga. Na Escola Municipal Jorge Ayres de Lima, Faiza recebeu um recado, por intermédio de uma funcionária, de que o pai de um aluno quer tirá-la da escola. Foi o bastante para velhos fantasmas renascerem: – Já fiquei sem ter como trabalhar. Todo dia saio de casa treinando minha emoção. Espero abrir caminhos para quem fizer a operação depois de mim.

Mãe é o anjo da guarda e melhor amiga

A história de Faiza contraria qualquer estereótipo. Nas paredes e estantes de sua casa, em Xerém, imagens de santos, bíblias e fotos falam muito sobre a história da família. Ex-catequista e ex-professora de crisma, Faiza adora receber as visitas das freiras franciscanas e dos grupos de oração. Religiosa, é fã das canções sacras compostas pela Irmã Miria T. Kolling e mantém uma vida recatada. Essa trajetória só foi possível graças a Dona Gecy Coutinho, de 75 anos, mãe de Faiza. Católica praticante, ex-ministra da Eucaristia, ela nunca rejeitou a filha. Preferiu protegê-la em sua casa a julgá-la. Quando a equipe de reportagem chegou à sua casa, Dona Gecy ficou acompanhando, de longe, a entrevista. Os olhares, desconfiados, denunciavam o medo das visitas. Só depois, abriu o coração. – Ela já sofreu muito, sofre até hoje e não merece. É ótima filha, muito católica. Sempre me ajudou a cuidar da minha irmã, que está em cima de uma cama por causa de um derrame – disse, sem disfarçar a emoção.

Coragem de assumir

Faiza conta que, quando vez a operação, amigas lhe recomendaram mudar de cidade e recomeçar a vida. – Disseram para eu abrir um salão, ir para longe, onde não me conhecessem – lembra ela, que preferiu enfrentar o preconceito e lançar dois livros “O primeiro beijo” e “O amor supera tudo”.

Pai vê lição de casa com desconfiança

Na Escola Municipal Jorge Ayres de Lima, a atuação de Faiza é elogiada. – Ela é superbem aceita. É ótima professora. Todos sabem sobre sua história e a respeitam. Apenas um pai não gostou que ela colocou foto e e-mail em uma redação. Mas foi um incidente menor – minimiza a coordenadora Cássia Conceição Fernandes de Oliveira. Para Faiza, o incidente demonstra o preconceito velado. Segundo a professora, para ajudar os alunos na confecção de uma redação sobre o perfil de cada um, Faiza fez uma ficha com seus próprios dados pessoais. Cada aluno deveria imitar a professora e, a partir dos dados, construir um texto.

– A funcionária acabou me dizendo que o pai da criança não me aceitava. Disse que eu não ficaria magoada caso a escola quisesse trocar o aluno de turma, tem vários outros estudantes que querem ter aulas comigo, a comunidade me adora. Mas disseram que o pai queria minha saída da escola. Tenho tido dores-de-cabeça e chorado muito – conta Faiza. A história remete a um trauma do passado. Faiza foi afastada da primeira escola municipal em que trabalhou pela diretora após começar a fazer mudanças no seu corpo e no seu modo de vestir. Depois, vagou por várias escolas. – Nós a procuramos quando soubemos que ela estava sofrendo. Ela está tendo o apoio jurídico do estado – conta Marjorie.

 

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