UMA AULA A MAIS REDUZ ‘ATRASO’ DE ALUNO

24 05 2008

Estudo mostra que ampliar de 4 para 5 horas-aula diminui o índice de distorção idade-série no ensino fundamental

Simone Iwasso (Do  “O ESTADO DE SÃO PAULO”)

Uma hora a mais de aula por dia diminui o índice de distorção idade-série dos alunos no ensino fundamental – ou seja, a quantidade de estudantes que estão na série errada para suas idades. A conclusão é de um estudo feito com base no Censo Escolar do Ministério da Educação, ao longo do período de 1998 a 2005. A redução do número de alunos por turma, por outro lado, não é um fator que faça diferença significativa, apesar de geralmente aparecer entre as principais demandas dos professores para um ensino de melhor qualidade. “Verificamos que, no Brasil, por ser um País onde as escolas não têm infra-estrutura e os professores não têm formação, existe uma relação entre os insumos da educação – entendendo-os como infra-estrutura escolar – e o desempenho dos alunos, usando como parâmetro a repetência”, explica Sergei Soares, um dos autores do estudo e pesquisador da Diretoria de Estudos Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). De acordo com o estudo, a cada hora a mais de aula, a tendência é que se reduza em 5 pontos percentuais o índice de alunos fora da série adequada para a idade. Por exemplo, se uma cidade como Rio Branco (Acre), cujo índice de distorção idade-série é de 68% (a média nacional está em 50%), aumentasse de 4 para 5 horas o turno do ensino fundamental, reduziria a distorção para 63%. Se aumentasse de 4 para 6 horas, o índice cairia para 58% e assim por diante. “Encontramos também um retorno decrescente no quesito infra-estrutura. Isso quer dizer que o efeito é maior em escolas em pior situação. Como se houvesse um limite para que isso faça diferença. A partir de certo nível, o impacto fica muito pequeno”, complementa. Segundo ele, o estudo mostra que é nas escolas sem energia elétrica, sem nenhum professor com graduação, bibliotecas ou material pedagógico que investir em cada um desses itens faz maior diferença. Nos locais em que não há nenhum professor graduado, a presença de um tem impacto maior no desempenho dos alunos. Onde 90% deles têm graduação, o impacto é menor. “É uma conclusão quase intuitiva, mas que verificamos nos modelos econométricos”, diz.
MENOS ALUNOS – Ao contrário do que acontece com o aumento do turno, a redução do número de alunos por turma, de 40 para 30, por exemplo, não chegaria a interferir em 1 ponto percentual nesse índice, apresentando impacto muito pouco significativo. Nesse caso, a pesquisa do Ipea segue a tendência de outros estudos, nacionais e internacionais, que colocam pouca ênfase na relação entre o número de alunos por turma para o desempenho dos estudantes. “Não estamos dizendo que é para se aumentar o número de alunos numa classe, apenas que, como política pública, investir na redução de alunos por turma não traz uma diferença significativa. É mais eficaz investir no aumento das horas de aulas dadas”, afirma a outra autora do trabalho, Natália Sátyro, consultora do Ministério de Desenvolvimento Social. Os pesquisadores fazem também uma estimativa de custos para justificar a relação entre aumento de horas e redução de turmas, por isso até usam os dois parâmetros paralelamente. Em ambos os casos, é preciso contratar mais professores, o que representa um aumento de 33% na folha de pagamento. Conclusões do tipo aparecem em outros estudos feitos com dados nacionais, mas que tomam como base de comparação o desempenho dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicado nacionalmente. Trabalho do economista Naércio Menezes, do Ibmec São Paulo e da Faculdade de Administração e Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP) mostrou que a redução de turmas não chega a significar nem 1 ponto a mais na prova, enquanto que o aumento do tempo de permanência na escola pode chegar a representar até 8 pontos a mais, para alunos da 8ª série do ensino fundamental. “Uma boa escola precisa de condições estruturais, o que passa pela qualificação dos professores, pelo tempo de permanência na escola e pelo número de alunos por sala de aula, cada uma tendo seu impacto”, afirma Ângela Soligo, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Campinas (Unicamp). “Esses confirmam com uma outra lente, usando tratamento estatístico elaborado, aquilo que temos descoberto na educação com estudos menores, mais focais, estudos de casos. É a confirmação por uma lente maior de fatos que com lentes pequenas temos observado”, complementa.

 

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