Cabeludos, virgindade, pílula etc

4 05 2008
 
 Deonísio da SilvaEscritor e professor

Hoje poucos jovens terão remorso pelos “erros do meu português ruim” do cabeludo que se queixava do abandono na música Detalhes, de Roberto Carlos. As moças pós-68 usavam a minissaia para mostrar as coxas. Hoje, de um guardanapo fazem duas minissaias. E, em vez de mostrar as coxas, mostram a calcinha. Isto é, quando estão usando. A cantora Britney Spears, inglesa como Mary Quant, a figurinista que inventou a minissaia em 1967, usa minissaia para mostrar que está sem calcinha. A mulher sem-vergonha desceu tanto, seja jovem ou madura, que a linguagem coloquial já chama todas as sem-vergonhas de piranhas, igualando-as às prostitutas ou, melhor dizendo, garotas de programa. Os anos pós-68 trouxeram a pílula. Não havia mais o perigo de engravidar na transa. E o preservativo, antes um aparato raro e estranho, ia entrar em extinção depois da pílula, mas daí veio a Aids e o preservativo virou moda com outro nome: camisinha. Sua função: não mais evitar a gravidez, mas a doença e a morte. Palavrão dava processo. Hoje crianças se queixam às mães quando elas perguntam como foi o dia na escolinha: “a professora quis me f….”. “Por que, minha filha?”. “Só porque eu esqueci de fazer a tarefa”. “Aquela piranha!”, diz a mãe. E assim segue a educação dos brasileiros. Depois desprezam os pais – alguns filhos, aliás, matam os pais a pauladas – e nos espantamos muito. Enquanto isso, políticos analfabetos proclamam na televisão que o Brasil precisa investir na educação. Um bom começo é exigir que deputados e senadores aprendam a falar, já que a ler e a escrever parece impossível. A virgindade era imposta, mas os namorados davam um jeito. E assim o sexo não era apenas ginecológico. Os pares aprendiam o valor do carinho, das preliminares. Hoje, a primeira pergunta do cara no bar é “você vem sempre aqui?”. Não faz mais nenhuma depois da seguinte, proferida depois de os dois chafurdarem no álcool ou em algo pior: “e aí, gata, vamo nessa?”. Nessa é o motel! Do motel voltam com litígios, traumas, filhos indesejados, doenças ou, no mínimo, decepções acumuladas. É raro o amor que ali floresça. Os filhos de pais pós-68 dispensam o motel. Transam na casa dos pais ou nas repúblicas onde moram, se universitários, sem grandes dissimulações. Há uma autorização não-dita e uma cumplicidade das mães e dos pais. No pós-68, arroba era medida de peso. Hoje você escreve ou usa arroba várias vezes por dia, na internet. Nossas namoradas não eram anoréxicas, comiam de tudo – o ser humano é onívoro – e tinham celulite, mas não se faziam de sanfonas, engordando e emagrecendo toda hora, retirando seios, botando seios, incrustando piercings ou depilando tudo até parecerem bonecas sem roupa. E não diziam na televisão o que faziam conosco nos carros… Nossa vida sexual era assunto privado. Hoje, certas mulheres proclamam na televisão o que, por pudor, se faz, mas não se diz que se fez… Não é hipocrisia, não. É respeito pelos outros, mas isso também está saindo de moda…

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: