MUDANÇAS URGENTES NA EDUCAÇÃO (excelente texto!)

13 04 2008

Mudanças urgentes na educação básica “(JORNAL DO BRASIL de 13-04-08)

Paulo Nathanael Pereira de Souza

Presidente do conselho de administração do CIEE

A notícia caiu como uma bomba e, apesar de ser péssima, teve o mérito de confirmar aquilo que, para nós, não é novidade e de há muito vinha sendo objeto de nossos artigos, palestras e entrevistas: o ensino básico no Brasil vive a maior crise de sua história. A escola não ensina, os professores se frustram e os alunos pouco aproveitam das aulas que recebem. Foi o que revelou recentemente o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), referente ao ano de 2007, avaliação que se aplica aos alunos das últimas séries dos ensinos fundamental e médio da rede pública do Estado de São Paulo: 80 % dos avaliados não sabem matemática, nem português, nos níveis adequados às séries escolares que freqüentam.

Vale aqui o que sempre dissemos: a escola, hoje, recebe o aluno em estado de analfabetismo puro e o devolve à sociedade, no fim do curso, como analfabeto funcional, isto é, sabendo muito menos do que deveria saber.

Três são os principais prejuízos a serem contabilizados numa situação, como essa: o do orçamento do Estado, porque gasta centenas de milhões de reais do erário público, anualmente, sem proveito para ninguém; o dos jovens estudantes, que crescem na obscuridade da ignorância, quando o mundo se insere na era do saber, em que para viver é preciso conhecer; o do futuro da nação, que quer evoluir da condição de emergente – não é por acaso que, entre as três dezenas de emergentes, o Brasil ocupa um dos últimos lugares, só à frente do Haiti, El Salvador, México e Guatemala – para a de desenvolvido, e não consegue fazê-lo com sustentabilidade.

Trata-se de uma crise ampla e profunda, cujo enfrentamento está a exigir uma mobilização nacional, com sociedade e governo dando as mãos, sob pena de vermos os nossos sonhos de progresso e modernidade se reduzirem a pesadelos de pobreza e decadência.

Urge que se tomem medidas capazes de modificar esse estado de cousas. E não falamos de reformas mirabolantes, como essas que, de quando em vez, são anunciadas pelos governos e que, nas suas textualidades vendem sonhos e baboseiras, como foi o caso da malograda mudança do ensino superior, anunciada há três ou quatro anos.

Na verdade o que se deve esperar são algumas mudanças menos ruidosas, ditadas pelo bom senso e que possam ter efeito imediato sobre a aprendizagem da infância e da juventude. Algumas das mais urgentes, ao nosso ver, são do tipo das que se seguem:

1. revisão profunda na ação didática do professorado, com a exigência de que todos os princípios teóricos ensinados em toda e qualquer disciplina do currículo escolar tenha claramente demonstrada, para a compreensão dos alunos, a sua aplicabilidade prática, no dia-a-dia de todos nós.

De que adianta ensinar os teoremas dos grandes matemáticos, se o aluno não consegue ver as suas proposições projetadas para o fazer prático da vida? Melhor seria não ensiná-los. E nisso não vai novidade, nem se está reinventando a roda, porque Confúcio já dizia, a seu tempo, que: “Aquilo que faço, eu aprendo”. E Dewey estruturou toda a sua filosofia educacional neste axioma: “Só sabe quem faz”.

Para tanto, há de haver reestruturação imediata dos cursos de formação de professores, para que todos eles saiam da faculdade, sabendo aplicar o conhecimento teórico às práticas diárias, que mostrem aos alunos dos ensinos fundamental e médio, que o saber não se dissocia do fazer. Como dizia Gusdorf: “A verdadeira pedagogia não liga à pedagogia”.

Conhecer em profundidade as teorias pedagógicas e seus famosos autores não basta para assegurar sucesso aos educadores. Mais importante do que isso é levar os educandos a compreenderem que tudo o que se contem nas lições das mais diversas disciplinas do currículo acontece no viver de cada ser humano.

Educar é, principalmente, levar a criança e o jovem a identificarem a praticidade aplicativa das teorias constantes dos textos escolares. É esse tipo de professor que faz falta às escolas, e não o pseudo-erudito, que fala desde a maiêutica socrática, até a teoria piagetiana sobre a origem e a progressão do conhecimento na aprendizagem.

De todas as reformas educacionais, a mais urgente e inadiável é a que consiga mudar radicalmente a formação do docente, de modo a ensiná-lo a ensinar a concretude de tudo o que se estuda teoricamente na educação básica.

2. generalizar nas escolas a integração da tecnologia educacional ao planejamento didático do ensino. Não basta dotar a escola de computadores com acesso à internet. Mais do que isso, mister se faz familiarizar o professor com o uso elementar da TI, a fim de que as aulas ganhem modernidade e interesse para alunos que, via de regra, sabem mais do que ele sobre o uso dessas linguagens eletrônicas. Sem essas providências, a escola para os jovens de hoje, parecerá cada vez mais inútil nos seus fazeres e equivocada nos seus propósitos. E, acima de tudo, arcaica.

Outras medidas se imporão neste feixe de mudanças, mas para discuti-las é preciso escrever livros e não apenas artigos. Já seria ótimo que alguma das mudanças aqui ugeridas viessem a acontecer a curto prazo.

 

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