APÓS SUSPEITA DE ERRO, FÍSICOS VOLTAM A ESTUDAR A IDADE DO SANTO SUDÁRIO

13 04 2008

Laboratórios investigam contaminação que poderia ter alterado idade da ‘mortalha’.
Livro que acaba de chegar ao Brasil defende origem ‘fotográfica’ da imagem.

Reinaldo José Lopes (do G1, em São Paulo)

A obsessão pela relíquia mais controversa da cristandade acaba de voltar aos laboratórios. Pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e do Turin Shroud Center, nos Estados Unidos, estão investigando a possibilidade de uma contaminação rara no Santo Sudário, a mortalha de linho que supostamente teria envolvido o corpo de Jesus Cristo após sua morte na cruz. Se tal contaminação ocorreu mesmo, a idade do Sudário estimada pela datação com carbono-14 — apenas uns 700 anos, indicando que o pano é uma fraude medieval — estaria incorreta. A nova bateria de testes é uma prova de como a imagem enigmática do Sudário continua fascinando cientistas e leigos, exatos 20 anos depois do suposto teste definitivo de sua autenticidade — no qual a mortalha acabou não passando. E também mostra como é difícil um estudo objetivo do artefato: é quase impossível encontrar uma visão científica consensual sobre o pano, com acusações de má-fé feitas tanto por defensores quanto por detratores da relíquia. Caso se trate mesmo de uma falsificação, também não há uma explicação universalmente aceita de como ela teria sido criada. Um livro que acaba de chegar ao Brasil defende a tese de que se trata de uma espécie de fotografia primitiva, usando uma argumentação interessante, mas força a barra ao atribuir a obra a ninguém menos que o personagem favorito das teorias da conspiração, o gênio Leonardo da Vinci. 

Carbono-14

O teste original da idade do Santo Sudário, hoje abrigado na Catedral de São João Batista em Turim (Itália), aparentemente seguiu à perfeição as exigências do método científico. Três grupos diferentes — da Unidade de Acelerador de Radiocarbono de Oxford, da Universidade do Arizona (EUA) e do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça — receberam amostras da borda do pano, longe da imagem, e as submeteram à datação por carbono-14. Nesse tipo de teste, estuda-se o desaparecimento gradual dessa forma radioativa e instável de carbono. O carbono-14 é absorvido por todos os seres vivos — inclusive as plantas usadas para fazer o linho do Sudário — durante seu metabolismo. Quando morrem, todos possuem uma proporção parecida de carbono-14 em suas moléculas, e essa proporção decai a uma taxa fixa ao longo do tempo. Com isso, a idade de qualquer amostra de matéria orgânica pode ser estimada. Ora, os três laboratórios obtiveram resultado parecido: o pano teria sido tecido entre os anos 1260 e 1390, no final da Idade Média. No entanto, John Jackson, do Turin Shroud Center, propõe que o Sudário pode ter sido contaminado por monóxido de carbono (CO), uma molécula na qual o carbono-14 aparece em proporções anormalmente altas. 

Possível, mas não provável

“Uma quantidade relativamente pequena de monóxido de carbono, equivalente a uns 2% do carbono no linho [do Sudário], seria o suficiente para alterar a idade da amostra em cerca de mil anos”, declarou em comunicado oficial o diretor da Unidade de Acelerador de Radiocarbono de Oxford, Christopher Ramsay. “Estamos colaborando com a equipe de John Jackson para verificar as taxas de reação [do CO com o pano].”

Ramsay, no entanto, lembra que nenhuma amostra datada por carbono-14 até hoje apresentou esse tipo de problema, graças principalmente à pequena quantidade do monóxido de carbono na atmosfera. No entanto, Jackson aposta que o incêndio que quase destruiu o pano no século 16 poderia ter criado as condições necessárias para o suposto erro de datação. “A equipe de Jackson ainda não conseguiu replicar essas condições, mas continua sendo possível, embora não muito provável, que futuros experimentos comprovem a idéia deles”, afirma Ramsay. Os laboratórios estão realizando experiências para tentar verificar se, em alguns contextos, a absorção maciça de CO pelo tecido acontece mesmo. 

 Leonardo da Vinci?

Enquanto os físicos britânicos e americanos tentam entender os dados contraditórios, o livro “O Sudário de Turim”, dos escritores britânicos Lynn Picknett e Clive Prince, apresenta uma mistura curiosa de análise científica e muita imaginação para explicar as anomalias encontradas na imagem. Na obra, recém-lançada no país, a dupla argumenta que o Sudário é um auto-retrato fotográfico de Leonardo da Vinci, feito provavelmente em 1492. Apesar da tese aparentemente fantasiosa, os dois apresentam um bom resumo das controvérsias científicas em torno da misteriosa mortalha. Um dos problemas é que muitos dos pesquisadores envolvidos no estudo do Sudário nos anos 1970 e 1980 eram católicos fervorosos, tendendo a ver o pano como a “prova física” da ressurreição de Jesus. Por isso, todas as supostas provas de autenticidade da imagem são contestadas. Dois trabalhos famosos, por exemplo, disseram ter achado pólen de plantas que só crescem juntas durante a primavera da Palestina em meio ao Sudário, o que provaria sua origem em Jerusalém, onde Cristo foi crucificado. No entanto, botânicos independentes afirmam que mesmo os melhores microscópios não permitiriam uma identificação tão precisa das espécies de plantas. O mesmo vale para os supostos traços de sangue — classificado como pertencente ao tipo AB — na mortalha. Alguns cientistas argumentam que, na verdade, há ali resquícios de corantes usados por artistas medievais, como o ocre vermelho. Para piorar, o pano parece ter sido extensamente manuseado ao longo dos séculos, o que permitiria a contaminação por pólen, DNA e até sangue estranhos ao “dono” original do Sudário.

Perfeito, mas nem tanto

Para completar, a imagem mostra detalhes incrivelmente realistas de ferimentos de chibatadas, de lança — a mesma que teria perfurado o tronco de Jesus e feito escorrer “sangue e água”, de acordo com o Evangelho de João — e marcas da crucificação. Aliás, a marca do cravo que teria pregado um dos braços de Cristo à cruz fica não na palma da mão, mas num local preciso do pulso, que dava estabilidade ao corpo crucificado. Era assim que os antigos romanos crucificavam seus prisioneiros, mas na Idade Média — suposta data em que o Sudário foi forjado — ninguém mais sabia disso. Tanto que as imagens da época mostram Jesus pregado pelas palmas das mãos. No entanto, o aspecto mais intrigante do Sudário é que ele parece abrigar uma imagem “fotográfica”: todos esses detalhes só são vistos no negativo das fotografias tiradas dele, já que a imagem “normal” é muito tênue. Lynn Picknett e Clive Prince, os autores do livro, afirmam que isso indica uma origem fotográfica ou protofotográfica para a própria imagem. Para comprovar isso, eles usaram substâncias e técnicas disponíveis no fim da Idade Média e na Renascença para tentar criar seu próprio “Sudário”. Como pigmento sensível à luz, escolheram uma mistura de clara de ovo e sal de cromo. Usando uma câmera escura (instrumento rudimentar que inspirou as câmeras fotográficas), conseguiram projetar a imagem de um busto de gesso numa tela coberta com o pigmento. O resultado foi uma imagem do busto que tinha até o famoso “efeito de negativo” do Sudário.

Questão de fé

O ponto fraco do interessante experimento é a ligação com Leonardo da Vinci. Eles acham que o artista criou o Sudário a pedido da Igreja mas, por ser herético, quis realizar uma brincadeira blasfema contra Jesus colocando seu próprio rosto no pano, “colando-o” em cima da imagem de um cadáver crucificado. Os argumentos são circunstanciais: afinal, “só Leonardo” teria conhecimento suficiente de anatomia e óptica para bolar uma fraude tão detalhada. Além do mais, a margem de erro do teste de carbono-14 poderia, em tese, significar que o Sudário foi feito no fim do século 15.

 No fim das contas, acreditar nessa tese vira quase tão questão de fé quanto acreditar na autenticidade do Sudário — a qual, é bom lembrar, não tem importância nenhuma para a fé cristã. Afinal, em nenhum lugar do Novo Testamento se diz que Jesus deixaria uma prova física de sua Ressurreição para forçar os descrentes a segui-lo.

 

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