IGREJAS EVANGÉLICAS CASAM GAYS

6 04 2008

FÉ ENTRE IGUAIS, IGREJAS EVANGÉLICAS ARREBANHAM FIÉIS CASANDO GAYS E LÉSBICAS EM CERIMÔNIAS QUASE TRADICIONAIS.

 

(REVISTA O GLOBO – 06/04/2008)

Por Karla Monteiro

Estava tudo combinado: em vez da marcha nupcial, Celine Dion. A única questão do casamento de Paullo de Oliveira Souza e Eduardo da Silva era quem desfilaria primeiro no tapete vermelho. Foi o pastor evangélico Marcos Gladstone quem decidiu: o mais jovem esperaria o mais velho no altar. Assim, Eduardo, de 26 anos, entrou primeiro, ao som de Celine, vestindo uma casaca inglesa branca. Depois, carregando um buquê de rosas, Paullo, de 30 anos. Também de casaca inglesa, só que bege, caminhou triunfal pela igreja embalado pela música-tema da novela “Alma gêmea”. O enlace aconteceu no dia 8 de dezembro de 2007. Paullo e Eduardo não dispensaram: convite com letra em alto relevo, festa para quase 200 convidados, pista de dança, farta variedade de docinhos, clube singelamente decorado com anjos e um bolo gigante, com um casal de pombinhos decorando os três andares de puro glacê. Ate hoje, os fiéis da Igreja Cristã Contemporânea ainda comentam a festança. No último domingo, dia 13, os recém-casados apareceram no culto semanal com o álbum de fotos para mostrar aos amigos.

– Fiquei sem ar quando vi o Paullo entrando com aquele buquê – conta Eduardo.

– Entrei ao som da musica da novela. Sabe? “Quando eu te vi, o sonho aconteceu”… ” – cantarola Paullo, relembrando o grande dia.

Os casamentos gays estão na moda. Pelo menos entre os evangélicos. Já existem no Rio duas igrejas que casam pessoas do mesmo sexo: a Igreja Cristã Contemporânea na Lapa e a Igreja da Comunidade Metropolitana, em Niterói. Formado em direito e teologia, Marcos Gladstone é o fundador da primeira. De terno, gravata e aliança no dedo direito (ele é noivo), o pastor conta que criou a sua congregação há dois anos. Foi – quase – em causa própria. Marcos é evangélico desde os 14 anos. Freqüentava uma igreja tradicional, que não aceita homossexuais. Como se sentia atraído por homens, considerava-se uma aberração. Em 1999, ganhou de presente uma viagem para São Francisco, na Califórnia, tida como a capital gay do mundo. Lá, enfim, se libertou. Ao voltar, rompeu as correntes com a sua antiga igreja. Mas não rompeu com a fé. Amealhou 20 pessoas, todas gays, e criou seu templo. Hoje, a igreja conta com 200 fiéis, já realizou dez casamentos e tem fila para novas uniões. – A maioria dos congregantes é gay, mas pregamos para todos – diz. – Somos uma igreja conservadora, que segue o Evangelho. Pregamos a fidelidade. Sexo, só depois de constância no relacionamento. Pedimos que os fiéis não se deitem com qualquer um. Um culto na Igreja Cristã Contemporânea em nada se diferencia dos tradicionais. O afterculto, porém, é mais cor-de-rosa. Integrantes da igreja há mais de um ano, o operador de telemarketing Pablo Guimarães e o estudante de psicologia Arthur de Paula, de 27 e 35 anos, respectivamente, querem se casar em novembro. Estão juntos há dois anos. A cerimônia como manda o figurino, seria um símbolo do amor eterno. Lúcia Carrilho, de 42 anos, e Isabel Betiany, de 33, também estão com o grande dia marcado para novembro. Namoram há dez anos. – Nossa igreja está aí para quebrar paradigmas. O amor vai além do corpo físico não tem a ver a convenção de que só pode rolar entre homem e mulher – teoriza Arthur. Em Niterói, a Igreja da Comunidade Metropolitana carrega o titulo de primeira igreja inclusiva do estado. A ICM, uma espécie de franquia, está presente no mundo todo. Foi fundada há 40 anos, em Los Angeles, por um pastor americano que foi expulso de uma igreja porque era gay. A versão brasileira nasceu há quatro anos. A sede fica no centro de Niterói, num prédio comercial, e o pastor local chama-se Gelson Piber. A história da ICM no Brasil confunde-se com a história dele. Gelson nasceu no Rio Grande do Sul. Na adolescência entrou para o seminário da Igreja Anglicana, formou-se em teologia e passou a lecionar na Escola Bíblica Dominical. Um dia confessou que era gay. A partir daí começou a ter suas aulas vigiadas. O alto escalão da igreja estaria confundindo homossexualidade com pedofilia O pastor bateu a porta e nunca mais voltou. – Fiquei revoltado. Um dia encontrei o site da ICM. Temos hoje igrejas em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Vitória, Recife, Teresina e Fortaleza – cita. – O problema das doutrinas cristãs é que elas são contra o sexo. Se dizem a favor da família. E nós, gays? Não podemos formar uma família? Com a bênção de uma bispa da ICM americana, Gelson se casou com o carioca Marco Batista numa cerimônia para 60 pessoas, em 2004, no primeiro ano de funcionamento da ICM brasileira. De lá para cá o pastor se dedica a uma causa: ajudar as pessoas a se aceitarem – e a serem aceitas – sem abandonar a religião. Ele já realizou 14 casamentos gays.

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